terça-feira, 9 de agosto de 2011

ATÉ ONDE VAI A FAXINA?


de Reinaldo Azevedo

Dilma, a “faxineira”, treme diante do PMDB! E aí? Vai encarar?
Milton Ortolon, secretário executivo do Ministério da Agricultura, não resistiu às primeiras horas da edição de VEJA nas mãos dos leitores. Caiu no próprio sábado, quando reportagem de Rodrigo Rangel revelou que um lobista, Júlio Fróes, atua livremente dentro do ministério, onde mantém uma sala tão ilegal quanto secreta. O seu, por assim dizer, ambiente de trabalho fica justamente na Comissão de Licitação da pasta. Por que não? Fróes chegou à Agricultura pelas mãos de Ortolon, braço direito do ministro Wagner Rossi até anteontem e seu amigo há 25 anos.

A reportagem de VEJA é eloqüente o bastante para que Ortolon não tente articular uma desculpa. Melhor cair fora. Mas só ele? E Wagner Rossi? É claro que Dilma sempre pode pensar que Erenice Guerra, sua secretária-executiva na Casa Civil e depois ela própria ministra, operava “por conta”. Ocorre que, no caso da Agricultura, há ao menos uma decisão tomada pelo próprio ministro que beneficiou o lobista espancador de repórteres. Um advogado de uma empresa que tem a receber uma dívida de R$ 150 milhões da Conab revela que representantes da estatal lhe cobraram a bagatela de R$ 22 milhões de propina para efetuar o pagamento. E agora?



Reportagem de O Globo (ver abaixo) informa que o governo está disposto a agir de modo diferente com o PMDB. Entende-se, pois, que a dita “faxina” da presidente Dilma pode até passar pelo porão, onde habitam os patriotas de Valdemar Costa Neto, do PR, mas demonstra não ter fôlego para chegar ao primeiro andar. Acreditar que havia um perverso Ortolon na pasta, que agia ao arrepio do seu chefe, parece ser história para boi dormir. Voltamos à frase-emblema: “A cada enxadada, uma minhoca”. É retirar o véu, e lá estão os aliados a agir segundo os métodos que foram se tornando consagrados na gestão petista. Porque é preciso lembrar sempre: esta é uma gestão do PT. O que isso significa?



Com o lulo-petismo, os agentes políticos puderam todos atuar segundo a sua natureza. É preciso lembrar que o PT ascendeu ao poder brandindo o discurso da ética. Quem conhecia a turma por dentro não dava dez tostões para a conversa, mas a fantasia publicitária prosperou. O PT não só fez acordo com forças que antes dizia repudiar como lhes conferiu mais poderes do que tinham. Lula e seus rapazes submeteram os agentes do atraso a uma espécie de “aggiornamento”, de atualização. A esquerdopatia que toma conta da academia e de boa parte da imprensa tenta esconder o óbvio: FHC tinha, sim, em sua base de apoio, uma parte ao menos da escória que se bandeou para o petismo, mas há uma diferença importante. Essa gente estava na periferia do poder, não no centro. UMA COISA É A CORRUPÇÃO COMO DISFUNÇÃO; OUTRA, DISTINTA, É TÊ-LA COMO MÉTODO.



E que fique claro: não há uma miserável razão para acreditar que o padrão seguido nos ministérios sob o comando do PT seja diferente. Nos bastidores, aliás, algumas figuras graúdas do partido vivem em pânico. Temem que apareça algo cabeludo em seus respectivos feudos e que isso detone um pedido de CPI. Há aliados do governo Dilma que estão doidos para dar o que chamam “troco”. Muitos deles perguntam a céu aberto onde estão as denúncias contra ministérios petistas. Acham-se injustiçados; os mais nervosos chegam a dizer que o PT está por trás das denúncias. No caso da Agricultura, convenhamos, ninguém precisa de um petista para denunciar a atuação aberta de um lobista, que chega a contar com estrutura de apoio da própria pasta para exercer o seu “trabalho”.



Se vocês fizeram uma pesquisa, verão, por exemplo, que o agora senador Walter Pinheiro (PT-BA) se queria uma espécie de consciência crítica do Parlamento e do seu próprio partido. Há uma emblemática declaração sua no Globo de hoje: “Não dá para ficar nessa de ataques múltiplos. Se isso virar prática corriqueira na base, será muito complicado. Vai ter uma hora em que não sobrará ninguém. É perigoso dar um tratamento isonômico a situações diferentes”.



Entendi! “Vai ter uma hora em que não sobrará ninguém…” É claro que Pinheiro expressa, assim, uma avaliação sobre a moralidade de seus aliados e do próprio governo. Como certamente não conta com a mudança de costumes do lobo, está pedindo indiretametne que se deixe o bicho em paz. E, para que sobrem muitos, então é preciso mudar de rumo, mudar de prosa, deixar pra lá. O que seria um “tratamento não-isonômico?” A situação do Ministério da Agricultura é, de fato, “distinta”: nunca antes na história destepaiz, acredito, um lobista de empresas privadas manteve um “escritório” na Comissão de Licitação de um ministério e distribuiu propinas ali, pessoalmente, ao vivo.



Os potenciais atingidos por uma eventual faxina para valer mandam recados e ameaças. A síntese poderia ser esta: “Na hora em que algum petista cair na rede, haverá CPI; cansamos desta história”. Do ponto de vista estrito da narrativa, faz sentido. O garantidor da imoralidade foi aquele que hoje mais se mobiliza para pôr um ponto final nesta história de apuração: Lula. Junto com as alianças que ele costurou, vinham uma escritura com o “ministério de porta fechada” e um atestado de impunidade. O modelo era perfeito: cada partido fica com o seu quinhão, administra e rouba como bem quer. Isso faz uma sólida maioria no Congresso, ninguém investiga ninguém, e o PT fica de mãos livres para “hegemonizar” o processo.

Não contavam com a imprensa no meio do caminho — daí que alguns até partam para o espancamento de repórteres. Dilma já se livrou de dois ministros — o terceiro, Nelson Jobim, não caiu sob suspeita de corrupção — e de uma penca de “servidores” do Dnit. A avaliação de seu governo, “punindo os corruptos”, segue estável, segundo o Datafolha. Há uma leitura meio torta que consiste no seguinte: “Ah, estão vendo?, os casos de corrupção não alteraram a avaliação que se tem dela”. Huuummm… Mandando larápio embora, fica tudo igual. Resta saber como ficará caso ela decida passar a mão na cabeça da canalha.



Arremato lembrando uma questão óbvia, mas que tem de ser dita para que não se a perca de vista o processo se fique com um juízo distorcido do conjunto: esse modo de governar já teve como “gerentona” a própria Dilma Rousseff e colaborou para a sua eleição. É por isso que patriotas do PR, do PMDB e outros agora cobram “reconhecimento” e “reciprocidade” .


segunda-feira, 8 de agosto de 2011

MANÉ PALANQUEIRO


de Augusto Nunes

O pastelão encenado no picadeiro do Circo do Planalto por Dilma Rousseff, Nelson Jobim e Celso Amorim acabou ofuscando o fiasco do palanque ambulante em Bogotá, onde fez escala na quinta-feira passada para animar um encontro entre empresários brasileiros e colombianos.

Lula estava lá para discorrer sobre as relações entre os dois países. No meio da discurseira, resolveu discutir a relação com Alvaro Uribe. Foi nocauteado no primeiro assalto.

Caprichando na pose de consultor-geral do mundo, com os olhos voltados para o presidente Juan Manuel Santos, Lula cruzou a fronteira da civilidade com a sem-cerimônia dos inimputáveis. “Estou certo que você e a presidenta Dilma Rousseff podem fazer mais do que fizemos o presidente Uribe e eu”, começou.

Pararia por aí se fosse sensato. Nunca será, confirmou a continuação do falatório: “Tínhamos uma boa relação, mas com muita desconfiança. Não confiávamos totalmente um no outro”.

Lula confia em delinquentes, cafajestes, doidos de pedra, assassinos patológicos, sociopatas, ladrões compulsivos ─ e em qualquer obscenidade cucaracha.

Hugo Chávez é um bolívar-de-hospício, mas o amigo brasileiro participou até de comícios eleitorais na Venezuela. Evo Morales tungou a Petrobras e anistiou os ladrões de milhares de carros brasileiros, mas Lula tem muito apreço por um lhama-de-franja. Cristina Kirchner não perde nenhuma chance de atazanar exportadores brasileiros, mas Lula não resiste ao charme da inventora do luto de luxo. O único problema do subcontinente é Uribe.

Embora desprovido de razões para desconfianças, Lula foi permanentemente desrespeitoso ─ e frequentemente grosseiro ─ com o colombiano que também conseguiu dois mandatos nas urnas, despediu-se da presidência com 85% de aprovação nas pesquisas e transmitiu o cargo ao sucessor que escolheu.

Embora sobrassem motivos para desconfiar de Lula, Uribe sempre o tratou com respeito e elegância. E suportou pacientemente, durante oito anos, as manifestações unilaterais de hostilidade.

DILMA NA DEFENSIVA. DE NOVO!


Pouco menos de um mês após ter divulgado uma nota em apoio ao então ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento, a presidente Dilma Rousseff foi obrigada neste domingo, 7, a lançar mão do mesmo expediente na tentativa de salvar o chefe da pasta da Agricultura, Wagner Rossi. Essa manifestação pública do Palácio do Planalto é mais um sinal de que a crise política que há três meses envolve o governo federal deverá se arrastar nos próximos dias e, a depender da oposição, vai culminar na demissão de mais um ministro sob suspeita de irregularidades.

Em maio, Dilma já havia defendido publicamente Antonio Palocci, à época no comando da Casa Civil. Mas, assim como Nascimento, ele acabou sendo forçado a deixar o cargo, acusado de desvios éticos. Semana passada, Nelson Jobim perdeu o cargo na Defesa por conta de declarações desfavoráveis ao governo. Agora, Dilma terá de enfrentar problemas com Rossi, ministro indicado pelo principal aliado do PT no governo, o PMDB do vice-presidente Michel Temer.

"A presidente Dilma Rousseff reitera sua confiança no ministro da Agricultura, Wagner Rossi, que está tomando todas as providências necessárias", afirmou a Secretaria de Imprensa.

A oposição cobrou ontem da presidente uma "faxina" no Ministério da Agricultura, nos mesmos moldes da feita na área dos Transportes. Para os parlamentares oposicionistas, Dilma não pode proteger Rossi simplesmente por ele ser do PMDB e afilhado do vice-presidente. A pressão cresce em função da queda, no sábado, do secretário executivo da pasta, Milton Ortolan, após a revelação de seu envolvimento com o lobista Júlio Fróes.

As evidências de loteamento político e inchaço no ministério devem tornar mais duro o depoimento de Rossi no Senado, ao qual ele irá na quarta-feira. E o ministro inicia a semana mais fragilizado, pois a Controladoria-Geral da União encarregou 12 auditores de um levantamento sobre contratos e convênios do Ministério da Agricultura.

Meta é CPI. O líder do DEM no Senado, Demóstenes Torres (GO), disse que o objetivo da oposição é conseguir abrir uma Comissão Parlamentar de Inquérito na qual se consiga investigar denúncias de corrupção nas diferentes esferas do governo. Ele destacou que a postura diferente de Dilma frente às acusações na área de Agricultura confere à atuação dela no caso do Ministério dos Transportes aspectos de jogo de cena.

domingo, 7 de agosto de 2011

LOBISTA COMPROMETE MINISTRO DA AGRICULTURA


Na semana passada, o ministro da Agricultura, Wagner Rossi, foi ao Congresso rebater as acusações de que sua pasta se transformou em uma central de negócios, conforme denúncia publicada por VEJA com base em uma entrevista do ex-diretor da Conab Oscar Jucá Neto, irmão do senador Romero Jucá. Depois de cinco horas de audiência, o máximo que o ministro admitiu é que, na Conab, há “imperfeições e não irregularidades”. A edição de VEJA que chega às bancas neste sábado traz reportagem com novas “imperfeições” da pasta comandada por Rossi.

A reportagem mostra a atuação de um lobista chamado Júlio Fróes, que vem operando dentro do Ministério da Agricultura. “Doutor Júlio”, como é conhecido pelos servidores, goza de privilégios. Tem acesso liberado à entrada privativa do ministério e usa uma sala com computador, telefone e secretária na sobreloja do prédio, onde está instalada a Comissão de Licitação - repartição que elabora as concorrências que, só neste ano, deverão liberar 1,5 bilhão de reais da pasta.

Em seu escritório clandestino, Julio Fróes prepara editais, analisa processos de licitação e, ao mesmo tempo, cuida dos interesses de empresas que concorrem às verbas. No ano passado, acompanhado pelo secretário executivo Milton Ortolan - braço direito do ministro Wagner Rossi - Fróes se instalou pela primeira vez na sala para redigir um documento que justificava a contratação dos serviços da Fundação São Paulo (Fundasp), mantenedora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Foram dois dias de trabalho, ao cabo dos quais o ministro Rossi autorizou a contratação da entidade, sem licitação, com pagamentos de 9 milhões de reais. O representante da fundação beneficiada? O próprio Júlio Froes. Meses mais tarde, o lobista convocou uma reunião com funcionários que o haviam auxiliado na elaboração do documento. O encontro aconteceu na sala da Assessoria Parlamentar, no oitavo andar do ministério. Cada um que chegava recebia uma pasta. As pastas continham dinheiro - uma "agendinha", no dizer do lobista.

Froes também se apresenta como representante do Ministério da Agricultura. Funcionários disseram a VEJA que, em certa ocasião, ele lhes contou como pediu uma "gratificação" de 10% aos donos de uma gráfica - a Gráfica Brasil - em troca da renovação de um contrato com o ministério. Mais ainda: ele assegurou ter agido assim por instrução de Milton Ortolan. "Realmente essa proposta nos foi feita por alguém que se apresentava em nome do ministro", disse à revista um dos responsáveis pela área comercial da empresa.

Em entrevista gravada, Júlio Fróes afirmou conhecer o ministro Wagner Rossi e o secretário executivo Milton Ortolan. Enfilerou, em seguida, um rosário de negações. Negou frequentar o prédio do ministério - onde foi flagrado pela reportagem na última quarta-feira, como atesta uma série de fotos. Negou ser representante da Fundasp, enquanto até o ministério diz que ele representou a entidade. E, subitamente, indagou: “Eu tenho gravações que comprometem o Ortolan. Quanto você me paga?”

Como relata em detalhes a Carta ao Leitor de VEJA, a entrevista teve um desfecho violento. Sentindo-se acuado, Fróes agrediu o jornalista Rodrigo Rangel e se apoderou de seu bloco de anotações. A agressão foi testemunhada por diversas pessoas em um restaurante e teve registro num boletim de ocorrência.

Procurado por VEJA, Milton Ortolan negou ser amigo de Fróes - disse que o conheceu no processo de contratação da Fundasp. O ministro Wagner Rossi afirmou inicialmente nunca ter ouvido falar no lobista. Um dia depois, sua assessoria informou, em nota, que o ministro o "cumprimentou uma vez", em 2010.

LOBISTA ESPANCA REPÓRTER DA VEJA


Ao longo de quase 43 anos de existência, VEJA teve de driblar a censura da ditadura militar, foi ameaçada por extremistas de direita e de esquerda e tornou-se alvo de campanhas difamatórias promovidas por mercenários da escrita bancados pelo governo petista. Na semana passada, em Brasília, o ataque deu-se no nível da agressão física a um jornalista de VEJA. No fim da tarde da última quinta-feira, o editor Rodrigo Rangel, da sucursal da revista na capital do país, cumpria uma das obrigações elementares do bom jornalismo: ouvir o outro lado da história. A história em questão tem como personagem principal o lobista Júlio Fróes. Como revela a reportagem que começa na página 64 desta edição, Fróes montou sua base de operações no Ministério da Agricultura. Ali, manipulava licitações para beneficiar empresas e subornava funcionários públicos com “pacotes de dinheiro”. Tudo com o aval e o conhecimento dos graúdos que cercam o ministro Wagner Rossi. O lobista, embora não tenha nenhum vínculo formal com o Ministério da Agricultura, gozava de tratamento vip, como usar a entrada e o elevador privativos do ministro. Na repartição, era conhecido como “doutor Júlio”.

O jornalista de VEJA foi entrevistar o “doutor” num restaurante, para tentar entender a origem de tantos privilégios. A conversa durou trinta minutos. Confrontado com os fatos apresentados por Rangel, o lobista Fróes, sem poder refutá-los, passou a fazer ameaças. Perguntou se o jornalista tinha mulher e filhos. Nesse ponto, Rangel achou mais prudente dar a entrevista - integralmente gravada - por encerrada. Quando ele se levantou da mesa, porém, Fróes puxou-o pelo braço, aplicou-lhe uma gravata e joelhadas na barriga e no rosto. Rangel foi jogado contra uma mesa. Antes de fugir, o “doutor” ainda roubou o bloco de anotações do repórter. A agressão, testemunhada por mais de uma dezena de clientes e funcionários do restaurante, foi comunicada à polícia. O jornalista, com um dente quebrado, fez exame no Instituto Médico Legal. Ao longo de quase 43 anos de existência, VEJA ultrapassou toda sorte de obstáculo para exercer sua missão de fiscalizar o poder e denunciar os que subtraem a nação. Não será a violência física do “doutor Júlio” que mudará essa história.

"O PIOR MOMENTO DA HISTÓRIA REPUBLICANA DO BRASIL"


O Instituto Millenium entrevistou o historiador Marco Antonio Villa sobre a corrupção do sistema político brasileiro e a impunidade, que, na opinião do especialista, ameaça o sistema democrático e inibe manifestações que contestam os acontecimentos políticos. Há, no Brasil, uma descrença na democracia? A participação civil na política brasileira se restringe às eleições, de dois em dois anos?

Villa criticou a falta de mecanismos que permitam uma reação popular à política no país e considera as novas tecnologias, como redes sociais, e até as novelas, importantes formas para discutir e contestar os governantes do Brasil.

Leia:

Instituto Millenium: Qual o impacto da recente onda de corrupção para a percepção da política?
Marco Antonio Villa: Estamos vivendo um dos piores momentos da história do Brasil republicano. Há uma sucessão de denúncias com gravações, documentos, coisas que são consideradas em qualquer país democrático como provas. O pior de tudo é que não há qualquer apuração e muito menos punição dos envolvidos e a cada semana ou a cada quinzena um novo caso é divulgado. O processo não anda, não chega a julgamento, e você acaba fortalecendo a impunidade e com a impunidade. Sem a punição aos que desviam os recursos públicos, estimula-se mais desvios e nós ficamos nessa bola de neve. Desta forma, a política passa ser sinônimo de corrupção, a ideia de enriquecimento rápido - o que é péssimo para a democracia. Assim, nós estamos afastando dezenas, centenas de jovens que gostariam de ter uma participação ativa na política, mas não o fazem com receio de se misturar com esses corruptos que dominam os partidos políticos. Grande parte deles tem lideranças corruptas com políticos (que passaram até pela presidência da república) envolvidos em gravíssimos atos de corrupção e, o que é pior, sem que tenham sido punidos por isso. Isso é muito grave. Mais corrupção, mais impunidade significa menos democracia.

Imil: Tais fatos podem gerar uma descrença na democracia, afastando ainda mais a população da política?
Marco Antonio Villa: Nós vivemos um momento sui generis. Não há um Estado autoritário, mas há um status autoritário no Brasil. As pessoas estão passivas porque não encontram conduto legal para manifestar sua insatisfação. Não é que elas estejam concordantes, em absoluto. Porém, não há mecanismos institucionais pra que elas possam manifestar sua profunda insatisfação frente à impunidade. E a democracia acaba virando um exercício a cada dois anos, simplesmente pelo voto. Porque a participação no decorrer da vida política entre as eleições não ocorre. Os partidos políticos são fechados, as câmaras municipais, assembléias legislativas e o congresso nacional também o são. A sociedade civil não tem espaços efetivos de participação e decisão nos grandes negócios públicos. Então nós temos um regime com eleições sucessivas, há alguma alternância, porém em relação à participação efetiva do cidadão e interesse pela política – que é fundamental para a formação de uma sociedade democrática – infelizmente nós vivemos, volto a dizer, um dos piores momentos da história do Brasil republicano.

Imil: Como mudar esse quadro?
Marco Antonio Villa: Existem vários caminhos. Um seria através das eleições, na hora do voto, ver se o seu candidato está comprometido com a sociedade que ele almeja – uma sociedade democrática em que a corrupção não seja o grande tema nacional. Ou seja, ter responsabilidade na hora do voto e ao identificar um candidato que tem propostas que ele considere boas, o eleitor deve divulgar para seus amigos, de alguma forma se comprometer com aquele candidato no momento da campanha e depois, caso o candidato seja eleito, cobrar dele efetivamente o programa pelo qual foi eleito. Outro caminho é a própria sociedade se organizar em grupos na forma de trabalho comunitário, institutos, sociedades que defendam os princípios básicos da democracia, da transparência, da honestidade no exercício das funções públicas. Outro, ainda, é o protesto através dos meios de comunicação, jornais, rádio e TV, todos esses querem contato com o ouvinte ou telespectador, então devemos usar esse espaço também para protestar. No caso das Assembléias Legislativas, Câmaras Municipais ou Congresso Nacional há o email do vereador, do deputado ou do senador: escrever e protestar. Também através das redes sociais, como já está começando a ser feito e já foi realizado com eficácia em outros países, criar mecanismos de reflexão, debate e ação.

O que não é possível é que a cada semana surja um escândalo que substitua o anterior sem que o anterior tenha sido resolvido. Os escândalos no Brasil tem prazo de validade, não porque eles são apurados mas porque aparece outro escândalo. Depois de uns três quatro meses ninguém lembra mais. Como disse o célebre jornalista Ivan Lessa, a cada 15 anos esquecemos o que aconteceu nos últimos 15. Nós temos um processo de esquecimento e apagamento da história com uma enorme facilidade, o que é extremamente danoso para a democracia brasileira.

Imil: Há uma novela bastante popular no ar atualmente que trata do tema da corrupção, inclusive com o corrupto sendo punido. O senhor acha que isso influencia a opinião pública? É uma abordagem eficaz de alguma forma?
Marco Antonio Villa: Acho que as novelas brasileiras são extremamente importantes e tem um papel de apresentação do Brasil em outros lugares do mundo. Alteraram a novela latino-americana que eram dramalhões e começaram a ter temáticas urbanas, discutir questões políticas, morais, éticas etc. Isso desde os anos 70 em pleno regime militar, basta lembrar a célebre novela de Dias Gomes, “O Bem Amado”. Lembro-me de uma delas próximo a eleição do presidente Fernando Collor, chamada “Vale-Tudo”, que terminava com o bandido da história indo embora do Brasil depois de ter feito as maiores falcatruas. Acho que isso é muito mais real do que aparecer qualquer forma de punição ao corrupto. Se a novela está fazendo um diálogo com a vida real ela tem de mostrar a impunidade. Se não se cria a idéia de que o bem sempre vence e infelizmente no Brasil o mal está ganhando de goleada.

SEMANAS CADA VEZ MAIS LONGAS

Por Lauro Jardim

Foi uma semana longa para Dilma Rousseff, daquelas que não acabam mais. Começou já no sábado de manhã, quando VEJA chegou às bancas com a entrevista de Oscar Jucá (“”Ali na Conab só tem bandido”"). Três dias depois, o Senado aprovou uma CPI para investigar as encrencas rodoviárias do governo. E manteve-se em ponto de combustão com as incontinências verbais de Nelson Jobim. Na sexta-feira, a S&P deu um empurrão no pânico econômico global ao cravar que os EUA não são mais um país AAA. Parecia o gran finale. Mas novas revelações de VEJA, publicadas ontem, levaram o número dois do ministériio da Agricultura a pedir demissão. Agora, o imbróglio é no topo de um ministério comandado pelo PMDB – mais do que isso comandado por um dos melhores amigos de Michel Temer, Wagner Rossi.

Tudo isso somado já daria dor de cabeça sufuiciente para Dilma Rousseff. São encrencas dentro do governo, nas suas relações com o Congresso e na economia. Nos próximos dias, Dilma tentará equilibrar-se nesta corda bamba. Não é tarefa para qualquer um. Cada um desses pepinos tem vida própria e tende a continuar a perturbar o governo.

No Senado, por exemplo, mal conseguiu sepultar a CPI que investigaria as estrepolias nos Transportes – a um custo sempre grande, pois é obrigatório render-se aos pedidos não republicanos de alguns senadores – Dilma está diante de um fantasma com o mesmo poder de assustar. Trata-se de uma CPI destinada a investigar o BNDES.

Ou mais precisamente os empréstimos que o BNDES deu nos últimos anos para criar os chamados ‘campeões nacionais’ e as obras das grandes empreiteiras em cerca de 40 países latinoamericano e da África. Esta CPI já conta com 22 das 27 assinaturas necessárias para sua instalação. Quem conhece a alma do Senado avalia que as assinaturas que faltam devem aparecer nos próximos dias.

A partir daí, se a CPI nasce de fato dependerá da capacidade do governo de ceder. Os heterodoxos senadores só retirarão seus nomes dali se receberem algo em troca. Em resumo, num Senado onde tem, em tese, maioria fiolgada, o governo está tendo que ceder mais do que devia.

E olha que já cedeu na semana passada, quando autorizou o pagamento de 150 milhões de reais em emendas parlamentares de deputados e senadores. Cedeu também, desta vez sem alarde, nos Transportes: uma comissão de altíssimo nível, composta dos senadores Magno Malta, Clésio Andrade e Blairo Maggi está aceertando nomeações para o , veja sõ, ministério dos Transportes. O mesmo que acabou de passar por meia faxina. Dilma corre o risco de em breve precisar de mandar comprar mais desinfetante.

Tudo isso acontece em meio a um cenário global de crise. Ninguém pode precisar ao certo como o mundo amanhecerá na segunda-feira, o primeiro dias útil pós-rebaixamento dos EUA e com a possibiliodade do contágio da gripe europeia cjhegar a França e a Inglaterra. O que se sabe com certeza é que Dilma será obrigada a dividir seu tempo entre diminuir a chama da crise no governo, no Congresso e a da economia.

Na quarta-feira, será divulgada a pesquisa CNI/Ibope. Como foi a campo há duas semanas, num ambiente muito mais calmo e logo depois de o IBGE anunciar uma taxa recorde de empregos e que a renda do trabalhador continuava subindo, o resultado será um bálsamo para Dilma. Sua popularidade subirá em relação ao que foi registrado no final de março pela mesma CNI/Ibope. O governo poderá até marqueter esses números. Mas sabe que são percentuais que retratam outra realidade.

O quanto tudo isso já paralisa a máquina governamental não se sabe. Certamente, é cedo para medir a extensão de tanta confusão. Não é pouca coisa mudar o ministro da Casa Civil, o de Articulação Instituciional, de Transportes e o da Defesa em apenas sete meses de governo. (Por generosidade, não entra nesta conta a troca no inútil ministério da Pesca) Mas não é difícil se prever mais uma semana longa, daquelas que parecem não acabar mais para Dilma.

INVASÃO DO SITE DO PMDB DENUNCIA CORRUPÇÃO NA COPA 2014


O site oficial do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) sofreu ação de hackers neste domingo (7/8). Na parte de notícias, os invasores anunciavam uma matéria de que a Copa do Mundo de 2014 seria motivo para desvio de dinheiro. Ao clicar no título, uma caveira aparecia na tela. Por enquanto o partido não se manifestou sobre o ataque, mas a página na internet já está fora do ar.

O invasor do site do PMDB que se identificou como "Azenha" publicou em um forum de internet um espelho da página hackeada para se vangloriar da ação. Frequentadores do forum correram para elogiar a "conquista". "As vulnerabilidades são muitas. Eles tem tanto dinhero mas não conseguem contratar um webmaster eficiente", escreveu na página de debates um hacker sob pseudônimo Airaska.

O site do PMDB já foi invadido por hackers no começo do ano passado. A ação foi parecida com a que ocorreu neste domingo, os hackers fizeram uma "pixação" com a inscrição: "site de corruptos. Na ação, os hackers deixaram um documento intitulado “40 propostas para o Brasil” direcionado aos "corruptos de plantão".

UMA RUDE PRESIDENTE


Adriana Vasconcelos e Gerson Camarotti, O Globo

As supostas críticas indiretas do ex-ministro Nelson Jobim à presidente Dilma Rousseff, quando ele elogiou o ex-presidente Fernando Henrique pela sua capacidade de nunca levantar a voz ou constranger auxiliares, são repetidas em Brasília por governistas, embora ninguém tenha coragem de falar publicamente.

O tratamento dispensado por Dilma a ministros, assessores e políticos aliados já provoca, nos bastidores, mágoas e descontentamentos com a presidente.

A situação anda tão difícil que os principais operadores políticos do governo não escondem sua preocupação. Receiam que Dilma, que andou segurando um pouco o estilo agressivo, mas não consegue se controlar totalmente, crie uma rede de inimigos no governo.

Até assessores mais antigos da presidente, como seu secretário particular, Anderson Dornelles, se ressentem do jeito rude de Dilma.

- O Anderson já pediu demissão várias vezes. Quando ele faz isso, a presidente manda ele tirar uma semana de folga. Já era assim antes e continua do mesmo jeito - confidencia um auxiliar de um ministro palaciano.

Diariamente, assessores e aliados costumam relatar episódios desagradáveis envolvendo a presidente. Outro dia, Dilma deixou o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general José Elito Carvalho Siqueira, constrangido e desconcertado ao determinar que ele não entrasse no elevador com ela, no Palácio do Planalto.

GOVERNO LULA, O GRANDE ENGODO!


O desastroso governo Lula já começa a ser dissecado e revela suas vísceras putrefatas, como se pode ver no artigo abaixo:

Merval Pereira, O Globo

No momento em que o governo Dilma reconhece o perigo da desindustrialização e lança um programa de incentivo à indústria nacional, com medidas protecionistas que, em alguns casos, repetem erros do passado, criando reservas de mercado que podem gerar uma indústria sem competitividade, o economista Reinaldo Gonçalves, professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro, publica um trabalho em que pretende demonstrar que, ao contrário do que seus seguidores defendem, o projeto econômico do governo Lula se caracteriza pelo que o economista chama de "Nacional Desenvolvimentismo às Avessas".

Ele classifica seu trabalho como uma crítica "aos analistas que identificam três traços distintivos do Governo Lula: a realização de grandes transformações; a reversão de tendências estruturais; e a predominância da visão desenvolvimentista nas políticas a partir de 2005".

Para Gonçalves, o que se constata claramente é: desindustrialização, aumento das importações (que chama de "desubstituição de importações"); reprimarização das exportações; maior dependência tecnológica; maior desnacionalização quando se desconta a expansão das três maiores empresas do país ligadas à exploração de recursos naturais (Petrobras, BR Distribuidora e Vale); crescente vulnerabilidade externa estrutural em função do aumento do passivo externo; e crescente dominação financeira, expressa na subordinação da política de desenvolvimento à política monetária focada no controle da inflação.

sábado, 6 de agosto de 2011

MAIS MERDA NO VENTILADOR


Após reportagem publicada na edição deste final de semana da revista "Veja", o secretário-executivo do Ministério da Agricultura, Milton Ortolan, pediu demissão.

Segundo a revista, o secretário, auxiliar direto do ministro Wagner Rossi, tinha relações com um lobista que, de acordo com a publicação, atua dentro do ministério, defendendo interesses de empresas

Em nota divulgada pela assessoria do ministério e na qual informa sobre o peddio de demissão, Ortolan nega ter cometido irregularidades e pede que sejam feitas investigações "em todos os níveis considerados necessários".

Júlio Fróes, o suposto lobista, teria, segundo a revista "Veja", um "escritório clandestino" dentro do ministério no qual prepararia editais, analisaria processos de licitação e defenderia os interesses de empresas nesses processos. Segundo a publicação, Fróes se apresentava como representante do ministério e, em entrevista, afirmou conhecer o ministro Wagner Rossi e o secretário-executivo Milton Ortolan.

Antes de informar sobre o pedido de demissão de Ortolan, a assessoria do Ministério da Agricultura havia divulgado nota do ministro Wagner Rossi, na qual ele negava ser amigo ou ter participado de reuniões com Fróes.

"Repudio as informações constantes da reportagem que tratam de Júlio Fróes, apresentado pela revista como meu amigo, segundo palavras atribuídas a ele. Nunca participei de reunião com este senhor. Não desfruta de minha amizade e nem de minha confiança. Reafirmo: não é meu amigo", disse Rossi.

TECNOLOGIA "MEIA-BOCA" NOS PRÉDIOS DO "MINHA CASA, MINHA VIDA"


Os primeiros moradores do Residencial São Francisco, conjunto habitacional do "Minha Casa Minha Vida" inaugurado nesta sexta-feira pela presidente Dilma Rousseff em Juazeiro (BA), encontraram na entrada de cada bloco de prédios uma placa advertindo para que não façam reformas, sob risco de "danos à solidez". É que os prédios foram construídos com a tecnologia "alvenaria estrutural", que os levou a serem conhecidos no Nordeste como "prédios-caixão" - sem pilotis e com alicerces em alvenaria, mas de estabilidade discutível.

O sistema é muito adotado na Região Metropolitana de Recife, mas tornou-se um problema para os mutuários e para o governo do estado. Na Grande Recife, existem dez mil prédios do tipo "caixão", mas estudos acadêmicos revelam que cerca de 60% deles apresentam algum tipo de risco. Destes, 12 já desabaram, inclusive fazendo vítimas fatais.

Um diagnóstico recente feito pelo governo de Pernambuco indicou que 340 desses imóveis estão com alto risco de desabamento, e dezenas foram interditados, a maior parte nos municípios de Recife, Olinda e Jaboatão dos Guararapes, os mais importantes da Região Metropolitana.

A Secretaria das Cidades de Pernambuco realiza atualmente um levantamento para saber se é possível recuperar algum desses imóveis. Muitos terão que ser demolidos. Quase todos foram financiados pelo governo, via Caixa Econômica Federal, como ocorre com o "Minha Casa Minha Vida", que está incluído no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

No residencial inaugurado nesta sexta-feira - que, segundo a prefeitura de Juazeiro, é o maior conjunto habitacional do "Minha Casa Minha Vida" -, há vários avisos: "Os edifícios que compõem o empreendimento foram construídos em alvenaria estrutural, não podendo ser feitos nenhuma abertura ou rasgo em qualquer parede do edifício, muito menos remoção de parte ou totalidade de qualquer parede. O descumprimento dessas orientações poderá causar danos na solidez ou segurança do edifício".

O conjunto custou mais de R$ 61 milhões ao governo federal. E nesta sexta-feira a presidente assinou ordem de serviço no valor de R$ 49,78 milhões, para financiar mais 1,2 mil moradias, dentro do novo PAC-2.

O conjunto inaugurado nesta sexta-feira, com 1,5 mil apartamentos, também apresentou um outro problema para os primeiros moradores, que chegaram lá na última terça-feira. Desde então, falta água nas torneiras, como relataram alguns moradores.

A manicure e dona de casa Soraya Silva, de 25 anos, três filhos e grávida do quarto, que morava na favela Ipiranga II, no município de Juazeiro, a 500 quilômetros de Salvador, sem água e sem esgoto, estava andando mais de 300 metros para buscar água com vizinhos e já havia apelado uma vez para o caminhão-pipa:

- Tomar conta de casa com três meninos no seco é difícil.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

DILMA TEM A TEMER


Tanto ou mais do que o acúmulo de inconveniências ditas por Jobim, contrariou Dilma o "timing" escolhido pelo ministro para fazer sua espetaculosa saída de cena. A presidente sabe bem que o Congresso retomou os trabalhos em clima conflagrado, não estando descartada a perspectiva de o semestre acabar com uma CPI instalada no Senado.

Dilma foi avisada pelo ex-ministro Alfredo Nascimento que estavam fazendo "mal feitos" no Ministério dos Transportes. O que ela fez? Nada!
Dilma foi avisada pela Associação dos Funcionários da CONAB que estavam loteando cargos na CONAB, subordinada ao Ministério da Agricultura, entre apadrinhados de políticos do PMDB. O que ela fez? Nada!

Para completar, o horizonte nebuloso da economia mundial inquieta o Planalto.

Ninguém dirá publicamente, mas a escolha de Amorim incendeia a já desgastada relação de Dilma com o PMDB.

Michel Temer foi aconselhado por vários líderes a não aceitar o cargo se lhe fosse oferecido, mas quem o conhece sabe que gostaria de ter sido lembrado. Além disso, Moreira Franco (Assuntos Estratégicos) aspirava a vaga.

O ex-ministro Nelson Jobim não é o único peemedebista que gosta de falar mal do governo e dos ministros petistas. Outros integrantes do partido, ocupando importantes cargos federais, também praticam esse perigoso esporte.

"LULA TREMIA DIANTE DE CHÁVEZ" - diz o ex-presidente URIBE


O ex-presidente da Colômbia Álvaro Uribe usou seu perfil no Twitter nesta quinta-feira para criticar o também ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Uribe disse que o brasileiro "fingia ser o melhor amigo" quando estava no poder, mas hoje maltrata o governo colombiano.

Mais cedo, durante o Fórum de Investimento Brasil-Colômbia, em Bogotá, Lula afirmou que sua relação com Uribe era de "desconfiança mútua".

"Lula hoje confessa que desconfiava de mim, mas o investimento do Brasil teve toda a confiança: dinheiro", disse o colombiano.

Em outra mensagem, Uribe afirmou:

"Lula criticava Chávez em sua ausência, mas tremia quando ele estava presente".

Farc

O colombiano também chamou Lula de "mau perdedor", já que estaria "bravo porque ganhamos o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) com Luis A. Moreno".

A afirmação faz referência à disputa para a presidência do banco, na qual o diplomata colombiano venceu o economista brasileiro João Sayad.

Uribe ainda alfinetou Lula dizendo que ele era incapaz de classificar os membros das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) como "terroristas". O colombiano também acusou o ex-presidente proibir a a transmissão de um debate em Bariloche entre líderes latinos sobre o grupo guerrilheiro.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

PROMETENDO TUDO CONTRA CPI


João Domingos, O Estado de S.Paulo

Tendo à frente a própria presidente Dilma Rousseff, que contou ainda com a ajuda de ministros e líderes na Câmara e no Senado, o governo conseguiu enterrar a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Transportes requerida pela oposição.

Para abortar a CPI, o Planalto prometeu acelerar obras, apoiar um candidato ao Tribunal de Contas da União (TCU) e até garantir a presença de Dilma na inauguração de uma ponte.

O governo conseguiu que dois senadores da base aliada retirassem suas assinaturas a favor da CPI. Como a oposição havia coletado 27 assinaturas - número mínimo para a instalação de comissão parlamentar no Senado -, as duas baixas inviabilizaram a iniciativa.

Com apenas 25 assinaturas, o requerimento foi mandado pelo presidente José Sarney (PMDB-AP) diretamente para o arquivo. Se quiser abrir uma CPI, a oposição terá que recomeçar a coleta de assinaturas.

O objetivo da CPI era investigar as irregularidades no setor de transportes, que já resultaram na demissão de 27 pessoas, entre elas o ex-ministro Alfredo Nascimento e o ex-diretor-geral do Departamento Nacional de Infraestrutura Rodoviária (Dnit) Luiz Antonio Pagot.

O senador João Durval (PDT-BA), o primeiro a retirar a assinatura, recuou em troca da promessa do governo e do PT de apoiar a candidatura de seu filho, o deputado Sérgio Barradas Carneiro (PT-BA), para vaga de ministro do TCU.

Até então, Dilma mostrava-se simpática à candidatura da deputada Ana Arraes (PSB-PE), mãe do governador de Pernambuco, Eduardo Campos.

Carneiro conseguiu da bancada de 86 deputados do PT a promessa de que cada um buscará o voto de um colega a seu favor na disputa pelo TCU. O cargo de ministro do tribunal é vitalício.

CIDADÃO DE SEGUNDA CATEGORIA


Por: Ives Gandra da Silva Martins (Jurista)

Hoje, tenho eu a impressão de que o "cidadão comum e branco" é agressivamente discriminado pelas autoridades e pela legislação infraconstitucional, a favor de outros cidadãos, desde que sejam índios, afrodescendentes, homossexuais ou se autodeclarem pertencentes a minorias submetidas a possíveis preconceitos.

Assim é que, se um branco, um índio e um afrodescendente tiverem a mesma nota em um vestibular, pouco acima da linha de corte para ingresso nas Universidades e as vagas forem limitadas, o branco será excluído, de imediato, a favor de um deles! Em igualdade de condições, o branco é um cidadão inferior e deve ser discriminado, apesar da Lei Maior.

Os índios, que, pela Constituição (art. 231), só deveriam ter direito às terras que ocupassem em 5 de outubro de 1988, por lei infraconstitucional passaram a ter direito a terras que ocuparam no passado. Menos de meio milhão de índios brasileiros - não contando os argentinos, bolivianos, paraguaios, uruguaios que pretendem ser beneficiados também - passaram a ser donos de 15% do território nacional, enquanto os outros 185 milhões de habitantes dispõem apenas de 85% dele.. Nessa exegese equivocada da Lei Suprema, todos os brasileiros não-índios foram discriminados.

Aos 'quilombolas', que deveriam ser apenas os descendentes dos participantes de quilombos, e não os afrodescendentes, em geral, que vivem em torno daquelas antigas comunidades, tem sido destinada, também, parcela de território consideravelmente maior do que a Constituição permite (art. 68 ADCT), em clara discriminação ao cidadão que não se enquadra nesse conceito.

Os homossexuais obtiveram do Presidente Lula e da Ministra Dilma Roussef o direito de ter um congresso financiado por dinheiro público, para realçar as suas tendências - algo que um cidadão comum jamais conseguiria!

Os invasores de terras, que violentam, diariamente, a Constituição, vão passar a ter aposentadoria, num reconhecimento explícito de que o governo considera, mais que legítima, meritória a conduta consistente em agredir o direito. Trata-se de clara discriminação em relação ao cidadão comum, desempregado, que não tem esse 'privilégio', porque cumpre a lei.

Desertores, assaltantes de bancos e assassinos, que, no passado, participaram da guerrilha, garantem a seus descendentes polpudas indenizações, pagas pelos contribuintes brasileiros. Está, hoje, em torno de 4 bilhões de reais o que é retirado dos pagadores de tributos para 'ressarcir' aqueles que resolveram pegar em armas contra o governo militar ou se disseram perseguidos.

E são tantas as discriminações, que é de perguntar: de que vale o inciso IV do art. 3º da Lei Suprema?

Como modesto advogado, cidadão comum e branco, sinto-me discriminado e cada vez com menos espaço, nesta terra de castas e privilégios.

( Ives Gandra da Silva Martins é renomado professor emérito das universidades Mackenzie e UNIFMU e da Escola de Comando e Estado do Exército e presidente do Conselho de Estudos Jurídicos da Federação do Comércio do Estado de São Paulo ).

Para os que desconhecem este é o :
Inciso IV do art. 3° da CF a que se refere o Dr. Ives Granda, em sua íntegra:

"promover o bem de todos, sem preconceito de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação."

Assim, volta a ser atual, ou melhor nunca deixou de ser atual, a constatação do grande Rui Barbosa:

"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto". (Senado Federal, RJ. Obras Completas, Rui Barbosa. v. 41, t. 3, 1914, p. 86)

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

ESPIRRANDO LAMA


Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

Pode ser que seja apenas choro de perdedor. Mas pode ser também que tenham fundamento as denúncias de Oscar Jucá, o irmão do líder do governo no Senado, Romero Jucá, demitido na diretoria financeira da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) por autorizar irregularmente o pagamento de dívida de R$ 8 milhões a empresa registrada em nome de dois "laranjas".

Ele acusa o próprio ministro na Agricultura, Wagner Rossi, de comandar um esquema de corrupção "pior" do que aquele que levou o governo a promover 27 demissões no Ministério dos Transportes.

Rossi é do PMDB - partido que ocupa três das cinco diretorias da Conab - e foi indicação direta do vice-presidente Michel Temer. A acusação, se verdadeira, atingiria o partido que na semana passada chegou a redigir uma nota oficial exortando os "órgãos de controle" a cumprirem seu dever de fiscalizar sem dó nem piedade todas as suspeitas irregularidades na administração federal, envolvendo o PMDB ou qualquer outro partido da coalizão governamental.

Os pemedebistas estavam especialmente desconfortáveis com versões de que seriam poupados da ofensiva ética para evitar retaliações ao governo no Congresso. Da nota não se teve mais notícia - pelo visto achou-se por bem não oficializar por escrito a defesa da transparência.

O governo, de seu lado, rechaçou desconfianças de que a limpeza poderia ser seletiva, limitando-se ao mal-afamado e combalido PR. "Vai continuar", repetiu várias vezes a presidente Dilma Rousseff sempre que lhe perguntaram sobre sua disposição de mudar o escopo da obra do fisiologismo.

"Nenhum ato (de corrupção) será tolerado", começou a semana dizendo Gilberto Carvalho, garantindo que o governo iria "para cima" quando houvesse denúncias.

Pois bem, surgiu uma com nome e sobrenome do denunciante, que aponta a existência de um balcão de negócios no Ministério da Agricultura.

Do partido até outro dia indignado com ilações ao seu respeito o que se ouviu foi um pedido de desculpas feito pelo irmão do acusador à presidente.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

PAGAR IMPOSTOS PARA ISSO?


Roberto Muylaert, Folha de S. Paulo

Cheguei ao escritório para assinar cheques. Enquanto examinava o volume de recursos a enviar ao governo, lembrei das notícias que havia lido pela manhã.

Foi quando fiz uma correlação entre os escândalos do desvio de verbas apontado naquele dia, no Ministério dos Transportes, e os impostos que pagava. Tudo sob o controle do PR, partido do puxador de votos Tiririca, cujos eleitores estavam crentes de que faziam voto de protesto, enquanto davam margem à manipulação de parcela dos R$ 25 milhões do Orçamento.

Tive ímpetos de escrever ao governo para que o nosso dinheiro não se destinasse àquele ministério, como se ali estivesse contido o único pacote de irregularidades que se conhece.

Lendo "Carta Capital" descobri que a faxina que trouxe à tona esses desvios está apenas no começo. Pode dar a impressão, pela abrangência do malfeito, de que nosso país tem maioria de gente desonesta, o que, felizmente, não é verdade.

Está na hora de dar apoio à presidente, para que ela mantenha a energia gerada por sua revolta, à medida que se revelam novas irregularidades. Cobrar impostos de quem trabalha, para a manipulação posterior por malandros federais, como diria Chico, não está certo.

A diminuição de impostos traria uma redução proporcional da sonegação, e o consequente aumento da arrecadação, como já demonstrou a curva de Laffer, desenvolvida por esse economista de Los Angeles, a provar que, acima de certo percentual da alíquota cobrada, a arrecadação cai. Uma das vantagens de tirar menos do contribuinte se baseia no fato de que ele tratará melhor os seus recursos do que o governo.

Outra vantagem é dar menos munição para a roubalheira.

Nos raros casos em que um imposto é reduzido, ou eliminado, o governo corre célere para criar outra forma de arrecadação compensatória. Jamais se compensa aquela verba cortando despesas.

E quem já percorreu o caminho para corrigir um Darf, ou se aventurou num formulário da DCTF, gasta um grande número de horas em seu preenchimento, quando bem melhor seria aplicar esse tempo na atividade-fim da empresa.

Antes do certificado digital havia um sistema de envelopamento para onde seguia a defesa do contribuinte, o que acabou por gerar um estratosférico volume de papéis velhos e mofados, nunca abertos.

Agora, já se pode retificar a declaração por via digital. O pagador de impostos tem de 15 a 30 dias de prazo para responder, quando notificado, enquanto a Receita tem 360 dias para analisar a defesa, na esfera judicial.

Enquanto isso, o devedor deve depositar o valor equivalente ao imposto "não pago", que pode já ter sido liquidado. Mesmo com a suposta dívida garantida, o máximo que a empresa consegue, em sua defesa contra a morosidade, é a "certidão conjunta positiva com efeito de negativa".

Aquela turma de Brasília que cobra impostos faz um bom trabalho para a União. O problema é para onde vai o valor arrecadado.

Para quem desvia recursos, a operação deve ser menos complexa do que o caminho percorrido para quitar os impostos.

EMPURRADA PELA IMPRENSA


Merval Pereira, O Globo

A presidente Dilma começou a utilizar os mesmos métodos que o seu tutor, o ex-presidente Lula, usava quando não queria resolver os problemas. Quando recebeu a denúncia da existência do mensalão, feita pessoalmente pelo então líder do PTB, Roberto Jefferson, o presidente Lula, em vez de acionar a Polícia Federal ou mandar abrir uma investigação através da Corregedoria Geral da União (CGI), pediu que o líder do PT na Câmara, Arlindo Chinaglia, e o ministro das Relações Institucionais, Aldo Rebelo, do PCdoB, investigassem o assunto.

Como era de se esperar, os dois não encontraram qualquer indício do fato, e o assunto morreu até que Roberto Jefferson denunciasse o esquema em uma entrevista à "Folha de S.Paulo".

No caso do Ministério da Agricultura, feudo do PMDB, onde haveria uma "central de negócios" montada sob a chefia do ministro Wagner Rossi, a mudança de estilo em relação às atitudes que tomou contra a "central de negócios" montada pelo PR no Ministério dos Transportes foi significativa.

Até o momento, a presidente Dilma Rousseff vinha sendo mais diligente com as denúncias de corrupção: prometeu uma faxina "sem limites" no Ministério dos Transportes, dominado pelo PR, e garantiu que qualquer denúncia seria rigorosamente apurada.

É verdade que nenhum dos casos envolvendo corrupção naquele ministério foi descoberto pelos órgãos fiscalizadores do governo, embora a Polícia Federal viesse tratando do assunto há muitos meses, já no governo Lula, quando o esquema dos Transportes foi montado.

A inépcia do governo chegou ao ponto de nomear Marcelino Augusto Rosa para coordenador-geral de Operações Rodoviárias do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), ele que já respondia a processo disciplinar da Controladoria Geral da União (CGU), acusado de favorecimento de empreiteiras, e cuja mulher, Sônia Lado Duarte Rosa, representava empreiteiras em grandes obras.

Os dois eram conhecidos em Brasília como "casal Dnit", mas foi preciso que O GLOBO denunciasse o escândalo dentro do escândalo para que Marcelino fosse demitido horas depois de ter sido nomeado.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

O LULA SECRETO



Segue coletânea de artigos sobre o já mítico presidente Lula.

Mário Garnero, conta sobre o “Lula Secreto”

Mistério (e suspeita) na gênese desse lider politico

“Um dos grandes mistérios da história politica brasileira é compreender por que, afinal, os próceres do regime militar deixaram um jovem e desconhecido metalúrgico Luís Inácio da Silva, sem origem partidária e sem referência, sem grandes articulações, de repente se transformar em grande líder. Lula tem estrela? Sorte? É um predestinado? Ou teria sido construído, meticulosamente, nos arquivos secretos da ditadura? Fala-se inclusive, entre os militares da repressão, que Lula seria invenção do general Golbery do Couto e Silva, em armação com o empresário Mario Garnero. Será? Esta última possibilidade, a de haver um “Lula Secreto”, sempre foi aventada, mas nunca provada.

Recebi tempos atrás (de Alfredo Pereira dos Santos) cópia do capitulo de um livro de autoria do próprio Mário Garnero, “JOGO DURO”, relatando sua relação com Lula nos anos 70. O livro, já esgotado, foi editado pela Best Seller em 1988. O depoimento em questão vai da página 130 à 135. “Alguém já estranhou o fato do Lula jamais ter contestado o que o Garnero disse no livro nem tê-lo processado?”, indaga Alfredo Pereira Santos, autor da digitalização do trecho. Seria essa recusa decorrente da afirmação do próprio Garnero, segundo a qual…

“Longe de mim querer acusá-lo de ser o Cabo Anselmo do ABC, mesmo porque, ao contrário do que ocorre com o próprio Lula, eu só acuso com as devidas provas. Só me reservo o direito de achar estranho” (…) “Lula foi a peça sindical na estratégia de distensão tramada pelo Golbery – o que não sei dizer é se Lula sabia ou não sabia que estava desempenhando esse papel”, escreve ainda Garnero.

Procurei o próprio Mário Garnero para conversar sobre o assunto. Ele me recebeu com toda deferência, na sede do Brazilinvest, na av. Faria Lima, São Paulo. Em almoço com talheres de prata. “Não quero mais falar sobre isso”, desconversou Garnero. Sobre o livro, ele disse que já passou, que os tempos são outros (escreveu-o depois de ser preso, quando ainda guardava muitas mágoas), e que hoje não tem qualquer intenção de ressuscitar o assunto. Insisti daqui, perguntei das mais diversas formas. Sempre muito gentil, nada de novo informou. Mas o essencial está registrado em livro. Fiquem com o depoimento do Garnero, vale à pena ler até o fim e a fim de tirar as próprias conclusões.”

Hugo Studart

X X X

Um dos motivos para a recusa de Garnero em comentar o assunto pode se dar ao fato de que quase 20 anos depois de ter sido banido do mercado financeiro, Mário Garnero voltou ao centro do poder abraçado ao governo Lula. À frente dos presidentes do Senado, José Sarney, e do Supremo Tribunal Federal, Nelson Jobim, dos ministros Dilma Rousseff e Ciro Gomes e de sete governadores, foi anfitrião das autoridades e dos 300 empresários presentes em seminário no ano de 2004.
Foi em 2002 que Garnero entrou em ação e ofereceu seus serviços para aproximar o PT e os banqueiros internacionais. Uma resposta ao tal “lulometro”, um índice de desconfiança do capital estrangeiro com a possível eleição de Lula a presidência.

Garnero até articulou uma viagem de José Dirceu aos Estados Unidos que incluiu desde palestras para investidores no banco Morgan Stanley até visitas a gabinetes de altos funcionários em plena Casa Branca.

“Eu me vi obrigado, no final do ano passado, a enviar um bilhetinho pessoal a um velho conhecido, dos tempos das jornadas sindicais do ABC. Esse meu conhecido tinha ido a um programa de tevê e, de passagem, fez comentários a meu respeito e sobre o Brasilinvest que não correspondem à verdade e não fazem jus à sua inteligência.

Sentei e escrevi: “Lula…” Achei que tinha suficiente intimidade para chamá-lo assim, embora, no envelope, dirigido ao Congresso Nacional, em Brasília, eu tenha endereçado, solenemente: “A Sua Excelência, Sr. Luiz Ignácio Lula da Silva”. Espero que o portador o tenha reconhecido, por trás daquelas barbas.

No bilhete, tentei recordar ao constituinte mais votado de São Paulo duas ou três coisas do passado, que dizem respeito ao mais ativo líder metalúrgico de São Bernardo: ele próprio, o Lula. Não sei como o nobre parlamentar, investido de novas preocupações, anda de memória. Não custa, portanto, lembrar-lhe. É uma preocupação justificável, pois o grande líder da esquerda brasileira costuma se esquecer, por exemplo, de que esteve recebendo lições de sindicalismo da Johns Hopkins University, nos Estados Unidos, ali por 1972, 1973, como vim a saber lá, um dia. Na universidade americana até hoje todos se lembram de um certo Lula com enorme carinho

Além dos fatos que passarei a narrar, sinto-me no direito de externar minha estranheza quanto à facilidade com que se procedeu à ascensão irresistível de Lula, nos anos 70, época em que outros adversários do governo, às vezes muito mais inofensivos, foram tratados com impiedade. Lula, não – foi em frente, progrediu. Longe de mim querer acusá-lo de ser o Cabo Anselmo do ABC, mesmo porque, ao contrário do que ocorre com o próprio Lula, eu só acuso com as devidas provas. Só me reservo o direito de achar estranho..

Lembro-me do primeiro Lula, lá por 1976, sendo apresentado por seu patrão Paulo Villares ao Werner Jessen, da Mercedes-Benz, e, de repente, eis que aparece o tal Lula à frente da primeira greve que houve na indústria automobilística durante o regime militar, ele que até então era apenas o amigo do Paulo Villares, seu patrão. Recordo-me de a imprensa cobrir Lula de elogios, estimulando-o, num momento em que a distensão apenas começava, e de um episódio que é capaz de deixar qualquer um, mesmo os desatentos, com um pé atrás.

Foi em 1978, início do mês de maio. Os metalúrgicos tinham cruzado os braços, a indústria automobilística estava parada e nós, em Brasília, em nome da Anfavea , conversando com o governo sobre o que fazer. Era manhã de domingo e estive com o ministro Mário Henrique Simonsen. Ele estivera com o presidente Geisel, que recomendou moderação: tentar negociar com os grevistas, sem alarido. Imagine: era um passo que nenhum governo militar jamais dera, o da negociação com operários em greve. Geisel devia ter alguma coisa a mais na cabeça. Ele e, tenho certeza, o ministro Golbery.

Simonsen apenas comentou, de passagem, que Geisel tinha recomendado que Lula não falasse naquela noite na televisão, como estava programado. Ele era o convidado do programa Vox Populi, que ia ao ar na TV Cultura-o canal semi-oficial do governo de São Paulo. Seria uma situação melindrosa. “Nem ele, nem ninguém mais que fale em greve”, ordenou Geisel.

Saí de Brasília naquela manhã mesmo, reconfortado pela notícia de que ao governo interessava negociar. Desci no Rio com as malas e me preparei para embarcar naquela noite para uma longa viagem de negócios que começava nos Estados Unidos e terminava no Japão. Saí de Brasília também com a informação de que Lula não ia ao ar naquela noite.

Mas foi, e, no auge da conflagração grevista, disse o que queria dizer, numa televisão sustentada pelo governo estadual. Fiquei sabendo da surpreendente reviravolta da história num telefonema que dei dos Estados Unidos, no dia seguinte. Senti, ali, o dedo do general Golbery. Mais tarde, tive condições de reconstituir melhor o episódio e apurei que Lula só foi ao ar naquele domingo porque no vai-não-vai que precedeu o programa, até uma hora e meia antes do horário, prevaleceu a opinião de Golbery, que achava importante, por alguma razão, que Lula aparecesse no vídeo. O general Dilermando Monteiro, comandante do II Exército, aceitou a argumentação, e o governador Paulo Egydio Martins, instrumentado pelo Planalto, deu o nihil obstat final ao Vox Populi.

Lula foi a peça sindical na estratégia de distensão tramada pelo Golbery – o que não sei dizer é se Lula sabia ou não sabia que estava desempenhando esse papel. Só isso pode explicar que, naquele mesmo ano, o governo Geisel tenha cassado o deputado Alencar Furtado, que falou uma ou outra besteira, e uns políticos inofensivos de Santos, e tenha poupado o Lula, que levantava a massa em São Bernardo. É provável que, no ABC, o governo quisesse experimentar, de fato, a distensão. Lula fez a sua parte.

Mais tarde, ele chegou a ser preso, julgado pelo Supremo Tribunal Federal, enfrentou a ameaça de helicópteros do Exército voando rasantes sobre o estádio de Vila Euclides, mas tenho um outro testemunho pessoal que demonstra o tratamento respeitoso, eu diria quase especial, conferido pelo governo Geisel ao Lula- por governo Geisel eu entendo, particularmente, o general Golbery. Dois ex-ministros do Trabalho- Almir Pazzianotto e Murilo Macedo – podem dar fé ao que vou narrar.

Aí, já estávamos na greve de 1979, que foi especialmente tumultuada. O movimento se prolongava, a indústria estava parada havia quinze dias, e todos nós, exaustos, empresários e trabalhadores, tentávamos uma solução. Marcamos, no fim de semana, uma reunião na casa do ministro do Trabalho, Murilo Macedo, aqui em São Paulo.
Domingo , 8 da noite. O ministro, mais o Theobaldo de Nigris, presidente da Fiesp, dois ou três representantes de sindicatos patronais, eu, pela indústria automobilística, e a diretoria dos três sindicatos operários, o de São Bernardo, o de São Caetano e o de Santo André. Reunião sigilosa. Coisas do Brasil: como era um encontro reservado, a imprensa ficou sabendo. Chegou antes de nós.

Muita tensão, muito cansaço. E como o uísque do ministro era generoso, por volta das 2 da manhã tivemos a primeira queda. Literalmente, desabou sobre a mesa de negociações o deputado federal Benedito Marcílio, presidente do Sindicato de São Caetano, continuamos sem ele. Por volta das 4 e meia da madrugada , fechamos o acordo com Lula e com o outro (Pazzianotto servia como assessor jurídico do Sindicato de São Bernardo). Saem todos. Lula assume o compromisso de ir direto para a assembléia permanente em Vila Euclides, e desmobilizar a greve. O ministro do Trabalho, aliviado, ainda teve tempo de confidenciar: “Olha, se não saísse esse acordo, teria intervenção nos sindicatos”. Fomos dormir.

Quando acordei, disposto a saborear os frutos do trabalhoso entendimento, sou informado de que, de fato, Lula tinha ido direto para a assembléia. Como prometera. Chegou lá e botou fogo na massa. A greve iria continuar. Acho difícil que ele tenha feito de má fé. Sujeito maleável, sensível, ele deve ter percebido que o seu poder de persuasão sobre a assembléia não era tão amplo assim. Cedeu. Mesmo sabendo que as conseqüências se voltariam contra ele, como havia dito o ministro Murilo Macedo: intervenção no sindicato, ele afastado. Foi o que se deu.

Gostaria de lembrar ao Lula – que me trata como um desafeto – que sua volta ao sindicato, em 1979, começou a acontecer num escritório da Avenida Faria Lima, número 888, um dia depois da intervenção decretada. Ocorre que esse escritório era o meu e que ainda guardo uma imagem bastante nítida do Lula e do Almir Pazzianotto, sentadinhos nesse mesmo sofá que eu ainda tenho sob meus olhos, enquanto eu ligava alternadamente para o Murilo Macedo e para o Mário Henrique Simonsen, em Brasília.

- Se a intervenção acabar no ato, eu paro a greve – dizia Lula.

Eu transmitia o recado aos dois ministros que negociavam em nome do governo.

- Não é possível, o governo não pode fazer isso. Pára a greve que, em quinze, vinte dias, o sindicato estará livre – me respondiam, de Brasília.

Lula foi cedendo, aconselhado pelo Pazzianotto. Mas o acordo empacou num ponto:

- Como é que vou lá propor isso à peãozada, se não tenho nenhuma garantia de que o governo vai cumprir a promessa de acabar com a intervenção? – observou ele, cauteloso.
Confesso que também empaquei. Mas decidi arriscar:

- E se for eu o fiador? – perguntei. Era a única garantia que poderia oferecer.

- Como assim? – quis saber Pazzianotto.

- O seguinte: se o Lula não voltar ao sindicato, eu, na qualidade de presidente da Anfavea, vou ao público e conto esta história, dizendo que eu também fui ludibriado. Entro nisso com vocês.
Lula pensou um minuto:

- Aceito.

Liguei para o ministro Simonsen, para o Murilo Macedo, e, depois, para o Golbery, que prometeu: “Nós suspendemos a intervenção dentro de um mês e ele volta”.
A greve terminou. A intervenção foi suspensa em dez dias. Lula voltou à presidência do Sindicato de Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, para se preparar para vôos mais ambiciosos, que eu ainda acompanho, à distância, com bastante interesse.

No programa de tevê que citei, Lula reclamava de o Brasilinvest não ter pago seus débitos. O Brasilinvest nunca deveu aos trabalhadores, nem aos contribuintes brasileiros. Naquele momento em que Lula falava, os únicos credores com os quais os Brasilinvest ainda não tinha resolvido todas as suas pendências eram uns poucos bancos estrangeiros. Curioso que o presidente do Partido dos Trabalhadores tomasse as dores de banqueiros internacionais.“

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Dora Kramer fragmento de artigo publicado no Jornal do Brasil, 18 de agosto de 2004:

“O sindicalista Lula – ao contrário do que parece - não se absteve de estudar. Há relatos – nunca desmentidos – de sua preparação em cursos de AFL CIO, as centrais sindicais norte-americanas, quintessência do peleguismo e do anti-esquerdismo em geral e na John Hopkins University, em Baltimore, Estados Unidos (em 1972 ou 73), onde teria feito um curso de liderança sindical, desenhado sob medida para parecer de esquerda, apenas parecer, mas servir ao sistema dominante. Merece um doutorado honoris causa, ou seria horroris causa? E, além disso, já como diretor do sindicato dos Metalúrgicos, cursou o Instituto Interamericano para o Sindicalismo Livre, (Iadesil), sustentado pela CIA e passou a adotar sua própria “agenda”, livrando-se do próprio irmão, o Frei Chico, quadro do Partido Comunista.”

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Da entrevista do ex-deputado Sinval Boaventura ao Jornal Opção na edição de 22 a 28 de janeiro de 2006. (Foto: Golbery)

“Repórter: É verdadeira a história de uma reunião na casa do então deputado Simões da Cunha, na qual a deputada Ivete Vargas teria contado que saíra de um encontro com o general Golbery e este revelou que ia projetar o sindicalista Lula para ser o anti-Brizola ?

Sinval Boaventura: A Ivete Vargas* disse que tinha estado com o ministro Golbery, na chácara dele, e que ele dissera que precisava trazer o Brizola para o Brasil, porque ele estava se tornando um mito muito forte fora do país. Que era melhor ele voltar e disputar eleição, porque assim perderia o prestigio politico. Fui ao Golbery e ele confirmou a conversa com a Ivete. Explicou que sua estratégia era estimular a imprensa para projetar o Luiz Inácio da Silva, o Lula, um grande lider metalúrgico de São Paulo como uma liderança inteligente expressiva, para ser preparado como o anti-Brizola. Sou testemunha deste tese do general Golbery. “

*Ivete Vargas cujo marido trabalhava para Golbery, em 1979 presidiu uma das facções que disputaram o controle da sigla do PTB, com o grupo de Leonel Brizola, e finalmente, em 1980, por decisão do TSE, ganhou a disputa, e se tornou a Presidente Nacional do Novo PTB. Um novo PTB, governista, criado exclusivamente para enfraquecer Brizola.

(Foto: Lula e FHC panfletando)
Da entrevista de Jarbas Passarinho de 2008 na Terra Magazine:

Terra Magazine – As vitórias de FHC e Lula, um intelectual e um operário, podem ser consideradas uma herança de 68?
Jarbas Passarinho – Do Fernando Henrique, sim. Porque, como disse o Delfim (Netto), ele foi auto-exilado. Ele saiu do Brasil como o Delfim dizia: com passaporte e bagagem despachada (risos).

Mas é um julgamento suspeito. FHC e Delfim não se dão bem…
Tanto ele como o (José) Serra. Todos os dois depois ficaram meus amigos. Esse (FHC) eu considero um subproduto direto. O Lula, não. Lula pode constar como do Golbery (do Couto e Silva, 1911-1987, general e fundador do SNI).

Golbery, por quê?
Golbery fez tudo para conquistar o Lula. E a mudança de posição do próprio Figueiredo foi quando Lula começou a fazer as greves. Entendia que ele fosse um êmulo de Gandhi, já que ele não tinha lido o (Henry David) Thoreau, mestre da desobediência civil. Ele não leu nada, então é isto. Mas Gandhi ele devia saber… Me lembro quando ele deu uma declaração à TV, não aceitando a decisão do Tribunal do Trabalho de São Paulo sobre a reposição salarial dos trabalhadores. Lula disse: “Não reconheço esse tribunal”. Me lembro bem. Era desobediência civil! Coloco bem diferente do resto, até porque a reação dele já foi quando todas as liberdades fundamentais estavam restabelecidas.

O senhor conversou com Golbery, alguma vez, sobre Lula?
Não. Minhas relações com Golbery foram difíceis. No final, como eu faço muito no meu estilo, quando ele se demitiu do governo, eu era ministro e fui visitá-lo. Aliás, fiquei impressionado porque era um sítio cheio de animais, a esposa dele gostava muito. E as estantes dele eram muito precárias do ponto de vista da madeira. Mas eram enormes, um pavilhão inteiro de livros. Com a vantagem de que eram livros que eu também tinha lido (risos). Ele não comprava a coisa por metro.

O governo militar estimulou a liderança de Lula?
Creio que a política sindical é tipicamente isso. Agora, cada vez mais, o líder sindical trabalha sempre pra ter as melhorias imediatas. Aqui e agora. Saiu numa publicação aí de São Paulo que os colegas do Lula ficaram decepcionados com as adesões ao governo. Foi todo mundo pescar na represa Billings (risos). Lula, do ponto de vista original, iludiu demais. E tem esse grupo da esquerda burocrática, ao mesmo tempo uma esquerda suave, como a do intelectual Fernando Henrique, que pediu pra esquecerem o que ele escreveu; porque o mundo mudou. Realmente, mudou muita coisa. O Fernando Henrique, pra chegar ao poder, veio apoiado pelo que hoje é o DEM.

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‘Não sabia que Lula tinha derrotado os comunistas’

Em 1975, antes mesmo de tomar posse como governador, Paulo Egydio deu posse a Luiz Inácio Lula da Silva como presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo.

“Isso provocou uma reação da chamada comunidade de informações”, diz. Geisel teria perguntado “o que deu na cabeça” de Paulo Egydio. Ele explicou que Lula era adversário dos comunistas. Geisel relaxou: “Mas eu não sabia que ele tinha derrotado os comunistas”. Segundo Egydio, Golbery do Couto e Silva, da Casa Civil, manobrou para “atrair” Lula para a política.

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Brasil, 2008

“Na comemoração dos 60 anos do grupo pão de açúcar [eu estive presente], a única coisa que se ouviu da ‘direita conservadora’ é a união do Brasil grande com Lula.

Está se formando na elite empresarial brasileira um pensamento de que o Lula é um homem que a elite pode confiar com segurança.

Empresários, banqueiros e ruralistas demonstraram ao Lula, pessoalmente, suas intenções e projetos de que o PT continue no governo por mais 8 anos.

O empresário Abílio Dinis, presidente do Grupo Pão de Açucar, foi pessoalmente se desculpar ao Lula pelo seu seqüestro em 1989 atribuído ao Lula e ao PT (o pedido de desculpa foi público). A imprensa de hoje já dá sinais de que o pedido de desculpas foi aceito e que, agora, vão em frente como aliados empresários e Lula].

O golpe que muitos temiam neste grupo da resistência e de militares não virá da esquerda e sim da direita e das elites corporativas.

Detalhe:

Havia muita gente da UDR e dos frigoríficos de carne bovina [setor a que eu pertenço] presente no encontro e todos, quase por unanimidade, estão embarcando neste projeto de ‘Lula mais 8 anos’,[DILMA!] no maior e mais rico estado da federação. Isto é um bom sinal do que poderá acontecer no futuro.

Rui Vicentini”

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O que os empresários acham de Lula:
O mundo já deu tantas voltas nestes quase vinte anos que separam o seqüestro da festa dos Diniz que o dono do Pão de Açúcar não apenas convida Lula para ser uma das estrelas de seu jantar como lidera um grupo de empresários para um projeto pós-2010 em torno do presidente. De acordo com um interlocutor de Diniz, o grupo, do qual fariam parte também o empreiteiro Emílio Odebrecht, da Odebrecht, e Beto Sicupira, da InBev e amigo de Diniz, quer aproximar o presidente da gestão e do dia-a-dia das grandes empresas brasileiras depois que ele deixar o cargo.

“Esse grupo de empresários critica o hábito que os políticos brasileiros têm de deixar os cargos e fazer cursos nos EUA, ficando lá como bobos, sem nem entender direito inglês”, diz o amigo de Diniz. Eles acreditariam que Lula, mesmo tendo dirigido o país por oito anos, ainda teria o que aprender com as empresas brasileiras, muitas delas hoje multinacionais. A coluna tenta conversar com Diniz sobre o “projeto Lula pós-2010″. Ele sorri. A coluna insiste. E Diniz, sempre sorrindo: “Não posso comentar nada.”

O jantar do Pão de Açúcar reuniu tantos empresários e autoridades, como os ministros Nelson Jobim, da Defesa, e Dilma Roussef, da Casa Civil, entre outros -que foram mobilizados 30 agentes de segurança da Presidência da República, 20 batedores do aeroporto até o local do jantar, 20 agentes do Pão de Açúcar e mais seguranças da Casa Fasano para zelar pela tranqüilidade dos convidados. Cerca de 200 funcionários do Fasano serviam guloseimas como tartare de salmão envolto em papel de arroz, camarão em crosta de gergelim e vieiras com perfume de gengibre sobre risoto de pistache, mini-folhado de perdiz e papoula, vol-au-vent de camembert e damasco; para beber, espumante Valentim, nacional, feito em homenagem ao patriarca do Pão de Açúcar, Valentim Diniz, que morreu em março, aos 94 anos.

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Lula já deu aos banqueiros 75 bilhões em duas semanas

O governo Lula já tirou mais de R$ 75 bilhões das reservas brasileiras, ou seja, dinheiro público, para aliviar os bancos da falência

9 de outubro de 2008

Apesar da imunidade fictícia criada pelo governo Lula, da interferência da crise financeira sobre o Brasil, somente nas duas últimas semanas foram despejados nos cofres dos banqueiros, nada mais, nada menos que R$ 75 bilhões. Este valor é o que já foi entregue para conter as falências dos bancos privados, mas a tendência é que a transferência de dinheiro público para os bancos seja ainda maior, pois o governo está preparando novas medidas para dar liberdade total para o Banco Central atuar na defesa incondicional de bancos e instituições financeiras.

O governo está prevendo repasse de R$ 5 bilhões para o setor da Agricultura. São outros R$ 10 bilhões para o Fundo da Marinha Mercante e R$ 15 bilhões a mais para o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) poder disponibilizar na forma de linhas de crédito.

O governo tirou a obrigação dos bancos de realizar os depósitos compulsórios, depósitos realizados no Banco Central, diariamente, pelas instituições. Com esta isenção, os bancos possuem mais dinheiro em caixa para assim evitar falta de liquidez. Foi aumentada de R$ 100 milhões para R$ 300 milhões o valor que os bancos podem deixar de depositar a título de depósito compulsório. Somente esta medida fez com que os bancos tivessem à disposição para gastar, R$ 5,2 bilhões.

Ainda sobre os depósitos compulsórios o governo deu aos bancos a isenção do depósito em 40% para os bancos que comprarem carteiras de empréstimos de instituições que estiverem em crise. Com esta medida serão repassados para os bancos, mais R$ 23,4 bilhões. Ainda há a medida que adia o prazo de aumento da alíquota do depósito compulsório para as empresas que trabalham com leasing. Isso elevou o montante em mais R$ 8 bilhões.

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José de Souza Martins*

Quem viu as fotografias e leu o noticiário sobre a visita do presidente Luiz Inácio a Palmeira dos Índios, em Alagoas, deve ter estranhado exuberantes elogios (além da carona no Aerolula) ao ex-presidente Collor, extensivos a Renan Calheiros, que teve problemas na presidência do Senado. A que se pode juntar os elogios e o empenhado apoio que nestes dias deu a José Sarney, presidente do Senado, enrolado na questão dos atos secretos de nomeações para funções naquela casa do Congresso.

O Lula e o PT de hoje são irreconhecíveis em face do que disseram que seriam, no manifesto de fundação do partido, em 1980. Eles se tornaram interessantes enigmas para a compreensão dos nossos impasses políticos, os de uma história política que avança recuando. Em discurso de 1980, na Escola Superior de Guerra, o general Golbery do Couto e Silva, militar culto, ideólogo do regime instaurado pelo golpe de Estado de 1964, deu indicações sobre a armação do futuro político do País e do lugar que nele vislumbrara para Lula. O discurso está centrado nos requisitos da segurança nacional e se refere ao âmbito da liberdade política que romperia a dependência de facções da oposição em relação à polarização da Guerra Fria.

Para ele, a redução da liberdade política criara uma rede de organizações extrapolíticas de oposição ao regime. A abertura se justificava como meio de fazer com que os partidos renascessem “na plenitude de sua função de partidos”, para que a política retornasse ao seu leito natural, forma de manter as oposições divididas. Dedica umas poucas palavras à “ala esquerdista da Igreja”, e é quando cita Lula enquanto membro de uma elite sindical de líderes autênticos, “sem revanchismo ideológico”. Lula “poderia ter sido” um desses líderes, diz Golbery, que se confessa desapontado com ele porque fora atraído “para as atividades mais políticas do que propriamente sindicais”.

Intuitivo e prático, tudo sugere que Lula aos poucos compreendeu o plano de Golbery melhor do que o próprio Golbery. Era evidente a orfandade das esquerdas, que culminaria com a queda do Muro de Berlim no fim de 1989. No Brasil essa orfandade se traduzia numa fragmentação tão extensa que Paulo Vannuchi, hoje secretário de Direitos Humanos, chegou a escrever utilíssimo manual que mapeia e lista todos os grupos partidários da esquerda clandestina, indicando a origem de cada um como fragmento de outro. Sem passar pela aglutinação de ao menos parte dessa esquerda fragmentária, Lula nunca teria conseguido a legitimidade propriamente política que o tornaria a personagem que é.

Assim como Golbery, Lula também compreendeu que a Igreja Católica estava dividida em consequência das inovações do Concílio Vaticano II e que nela havia uma importante facção, que ia de leigos a bispos, ansiosa por aliar-se às esquerdas com base no capital político das comunidades eclesiais de base. A Igreja tinha seus motivos, temerosa de ver-se repudiada por ponderáveis parcelas da população, vitimadas por notórias carências sociais. A primeira manifestação da Igreja em favor da reforma agrária fora em 1950 e viera de um bispo conservador da diocese de Campanha (MG), dom Inocêncio Engelke, que alude em sua carta pastoral ao risco de que o êxodo de trabalhadores rurais para a cidade os colocasse à mercê do proselitismo comunista. É evidente que essa Igreja também compreendeu que Lula era um personagem politicamente à deriva ao qual poderia aliar-se, como se aliou.

Operário qualificado e bem pago de multinacional, Lula compreendia que o sindicalismo da era Vargas se tornava obsoleto e agonizava, impróprio para a nova militância do entendimento e da mesa de negociação. O sindicalismo lulista era apenas o instrumento da nova realidade das relações laborais, divorciadas da concepção de classes sociais, tendente ao fortalecimento das categorias profissionais e setoriais. Longe, portanto, do mito da greve geral, a greve política, mais de confronto com o Estado do que com o capital, que era a estratégia dos comunistas, fortes no ABC operário. Lula e o PT serão decisivos na demolição da esquerda característica e histórica.

O carisma crescente de Lula, a figura mítica buscada pelas esquerdas órfãs e pelo catolicismo social, foi fundamental para o salto de modernização política representado pelo surgimento do PT (e também pelo PSDB, entre outros partidos), com a abertura política promovida pela ditadura no marco das concepções de Golbery. Lula e o PT cresceram, aglutinando o que nem sempre corretamente se autodefine como esquerda. O manifesto de 2002, pelo qual o PT realinha suas orientações ideológicas a favor de uma generosa aliança com o capital e com as multinacionais, bem como com os grupos políticos de origem oligárquica, representa o cume na construção de esquerda do partido e o início do processo de sua desconstrução de direita. Ainda antes das eleições presidenciais daquele ano, Lula, falando a usineiros de açúcar e fornecedores de cana de Pernambuco e da Paraíba, fez a crítica do socialismo e lhes prometeu benefícios de política econômica, o que resultou na imediata adesão de todos a sua candidatura.

Daí em diante, Lula no poder e o próprio PT foram descartando pessoas e facções internas à esquerda de sua opção conservadora. Foram descartando também as organizações que atuam como movimentos sociais, abandonando ou atenuando programas e projetos. Inicialmente, para trazer o apoio do latifúndio e do grande capital a sua pessoa e a seu governo. Depois, para agregar a sua base política o que de mais representativo há do remanescente oligarquismo brasileiro e da obsoleta, e não raro corrupta, dominação patrimonial.

O solidário e empolgado abraço de Lula, com sorrisos, nesses três aliados, emblemáticos senadores da República, é sobretudo um fraterno e decisivo abraço no retrocesso histórico e nos reacionários arcaísmos da política brasileira. O general Golbery achou que se enganara. Não se enganou.