sexta-feira, 11 de novembro de 2011

O BURACO É MAIS EMBAIXO


Quando disse que só deixa o Ministério do Trabalho se for "abatido à bala", o ministro Carlos Lupi não fazia apenas uma fanfarronice - da qual diz ter-se arrependido. Tirá-lo do posto será mais difícil para a presidente Dilma Rousseff do que foi, por exemplo, trocar cinco ministros que se envolveram em suspeitas de irregularidades e um sexto, Nelson Jobim (Defesa), por insubordinação.

De acordo com informações de bastidores do Planalto, a presidente Dilma Rousseff sabe da força de Lupi. Hoje, se ele deixar o ministério e resolver fazer oposição, leva consigo 24 dos 26 deputados - Antonio Reguffe (DF) e Miro Teixeira (RJ) são adversários de Lupi, mas já atuam como se estivessem na oposição. Portanto, em um rompimento com o ministro Dilma perderia 26 votos na Câmara. No Senado, Lupi tem força sobre quatro dos cinco senadores - o independente é Cristovam Buarque (DF).

Dilma não pode simplesmente trocar Carlos Lupi por outro integrante do PDT. Para fazê-lo teria de negociar seu apoio a um novo nome e a certeza de que não levará o partido para a oposição. Com o PC do B, Dilma tirou Orlando Silva e pôs no lugar Aldo Rebelo, sem rebelião. Com o PMDB, trocou Wagner Rossi, na Agricultura, por Mendes Ribeiro; Pedro Novais, do Turismo, foi substituído por Gastão Vieira.

"FICA LUPI!"


de Guilherme Fiúza

O ministro do Trabalho, Carlos Lupi, disse que é “osso duro de roer”. Falou como um legítimo representante do trabalhismo.

O trabalhismo, como se sabe, é a arte de se pendurar no cabide estatal e não largar o osso.

De osso, portanto, eles entendem.

E esse deve ser mesmo duro de roer. Foram mais de 500 relatórios de prestação de contas engavetados na gestão Lupi, segundo o Tribunal de Contas da União.

Pode-se imaginar o trabalho que isso deu aos trabalhistas. Haja gaveta.

Nesse festival de convênios a fundo perdido, onde o dinheiro público passeia entre ONGs e entidades companheiras, constroem-se amizades sólidas.

Lupi pode não ter um milhão de amigos, mas tem R$ 1,5 bilhão em convênios, o que dá praticamente no mesmo.

Tudo depende do ponto de vista. O Palácio do Planalto, por exemplo, achou que tinha convênio demais na história. “A gente fez um alerta”, contou o secretário geral da Presidência, Gilberto Carvalho.

O tal alerta do Palácio aconteceu há três meses. Que providência Carlos Lupi tomou?

“Ele assegurou que o que precisava ter sido feito foi feito”, explicou o próprio Carvalho.

Pronto. É por isso que Dilma Rousseff é considerada uma grande gestora. Esse tipo de controle administrativo não falha. O ministro faz um ok com o polegar, e fica tudo bem.

É de fato uma monumental economia de papel, memória digital, tempo e paciência para ficar lendo relatórios. Basta um polegar para cima, e o resto do dia fica livre para o trabalhismo, o empreguismo e demais doutrinas que enchem barriga.

Dizem que os trabalhistas de Lupi andaram cobrando propina das ONGs. Não ficou claro se era para o engavetamento ou para o desengavetamento, mas isso é detalhe. O caixa dois é deles, ninguém tem nada com isso.

O que o Brasil não aguenta mais é ver ministro inocente demitido.

O pessoal das vassouras cenográficas deveria lançar a campanha “Fica, Lupi”. Quem sabe assim as investigações vão até o fim, uma vez na vida.

O osso é duro, a cara também. Então vamos com calma.

O ministro disse que quer ver “até onde vai esse denuncismo”. O país precisa saber até onde vai esse trabalhismo.

CHILIQUES E GROSSERIAS


de Augusto Nunes

A líder de nascença, extraordinariamente articulada e mais sabida que qualquer homem, capaz de remover impasses de bom tamanho com outra ideia luminosa ─ essa Dilma Rousseff começou a morrer de inanição quando a ministra de pouquíssimas palavras virou candidata à Presidência e teve de destravar a garganta.

Meia dúzia de frases sem pé nem cabeça bastaram para escancarar o neurônio solitário. A primeira entrevista mais demorada denunciou um cérebro em permanente litígio com o raciocínio lógico. A Joana D’Arc da guerrilha urbana é tão palpável quanto o Brasil Maravilha do cartório.

A superexecutiva onisciente, onipresente e onipotente, capaz de organizar em 30 minutos uma contrapartida administrativa do Barcelona ─ essa Dilma Rousseff morreu de anemia depois da saída de seis ministros (cinco por corrupção, um por alucinação) em menos de 10 meses de governo.

Um técnico de futebol que substitui meio time antes dos 25 minutos do primeiro tempo, para antecipar-se à expulsão inevitável e para subtrair-se às vaias das arquibancadas, só pode ser autorizado a escalar a seleção do hospício.

A arrogância debochada de Carlos Lupi ameaça rasgar a terceira e última fantasia. É a que enfeita a supergerente implacável, incansável e geniosa, capaz de fazer qualquer marmanjo folgado chamar a mãe já no início do pito arrasador, ou de emudecer até um cangaceiro aliado com aquele perturbador “meu querido…” rosnado ao pé da orelha.

“Pela relação que tenho com a Dilma, não saio nem na reforma”, jactou-se nesta terça-feira o ainda ministro do Trabalho, depois da conversa com a antiga companheira de PDT. Nada de “presidenta”, muito menos “presidenta Dilma Rousseff”. Para Lupi, a chefe de governo é “a Dilma”, com o artigo sublinhando a intimidade de comparsa.

Nesta quarta-feira, Lupi fingiu que a imprensa não entendeu direito o que disse. Negou ter desafiado a chefe, mas manteve a essência do falatório: vai continuar no cargo ─ antes e depois da reforma ministerial de janeiro.

Dilma encarregou Gleisi Hoffmann de lembrar à nação que é a presidente quem nomeia e demite. Mas não demitiu o homem que instalou num gabinete desonrado por incontáveis maracutaias.

A permanência de Lupi no ministério arrendado ao PDT fortalecerá a suspeita de que os frequentes ataques de nervos protagonizados por Dilma Rousseff não têm parentesco com os associados a governantes enérgicos, exigentes, durões.

São apenas chiliques. São só grosserias.

NEM E A POLÍCIA PODRE


Num longo depoimento na sede da Polícia Federal na madrugada de quinta-feira, acompanhado por um grupo restrito de policiais federais, o traficante Nem , afirmou que metade de tudo que faturava com a venda de drogas era entregue a policiais civis e militares da banda podre. A propina gorda seria entregue a numerosos agentes públicos. O traficante deu detalhes, inclusive datas, de casos de extorsão. Ainda no depoimento, o criminoso afirmou que, devido às constantes extorsões, em alguns períodos seu faturamento era zero. Segundo algumas estimativas da Polícia Civil, não confirmadas no depoimento, o bandido faturava mais de R$ 100 milhões por ano.

- Metade do dinheiro que eu ganhava era para o "arrego" (gíria para propina) - afirmou Nem

O bandido contou no depoimento que uma parte do seu lucro com a venda de drogas era gasta em assistencialismo na Rocinha, com pagamento de enterros, fornecimento de cestas básicas, compra de remédios e realização de obras.

- Quando me pediam, eu comprava tijolos e financiava a construção de casas na comunidade - disse.


DILMA GARANTE O LOTEAMENTO


de Dora Kramer

Ainda que o PDT não tivesse recuado oficialmente da ameaça, era evidente que o partido não sairia da base aliada ao governo com demissão ou sem demissão de Carlos Lupi do Ministério do Trabalho.

O motivo é o mesmo que mantém o PR firme, a despeito do esperneio por causa da demissão da cúpula do Ministério dos Transportes. É a razão pela qual não se altera o humor do PMDB mesmo depois da queda de três correligionários ou tampouco se abalam os nervos do PC do B que, houve um momento, pareceu disposto a cair (fora) junto com Orlando Silva.

Para os partidos seria melhor que não houvesse denúncias, mas, uma vez ocorrido o desastre, tanto faz como tanto fez: a eles importa pouquíssimo quem os represente. O importante é que estejam representados, cada qual com seu quinhão da máquina pública para usar e, não raro, abusar.

E quem lhes garante a prerrogativa? Ninguém que esteja ocupando uma cadeira ministerial: é a presidente da República. Ela detém por delegação a guarda da chave de tudo o que lhes interessa. A questão é entre Dilma e os partidos.

Levada em conta essa premissa, haveria uma boa economia de tolices ditas sobre o "risco" de essa ou aquela legenda deixar a base aliada.

Defecções podem acontecer. Mas nunca no primeiro ano de governo nem a razoável distância de eleições, muito menos na ausência de algo ou alguém que represente expectativa concreta _ e de preferência segura - de poder. Enquanto a canoa ao mar for uma só, a maioria estará nela.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

DILMA TAMBÉM RECEBEU


O banco PanAmericano doou R$ 300 mil para o diretório nacional do PT em maio do ano passado, poucos meses antes do início da campanha que levou a presidente Dilma Rousseff ao Planalto.

A contribuição foi contabilizada regularmente pelo partido, mas foi feita de maneira dissimulada pelo banco, que usou empresa com a qual tinha relações comerciais para fazer o repasse e disfarçar a origem do dinheiro.

A doação foi feita poucas semanas depois do início das investigações do Banco Central que apontaram fraudes nas operações do PanAmericano e mais tarde revelaram um rombo de R$ 4,3 bilhões na sua contabilidade.

A estranha e generosa ajuda de Lula a Silvio Santos, comprando um banco quebrado através da Caixa Economica Federal e socializando o prejuízo com o contribuinte brasileiro, vai aos poucos, tomando sentido, na forma de retribuição às doações feitas, tanto a Lula nas eleições de 2006, quanto à Dilma nas eleições de 2010.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

ELE SÓ SAI A TIRO. QUE SEJA!

de Augusto Nunes

Por ser dono da banca de jornais de que Leonel Brizola se tornou freguês, Carlos Roberto Lupi virou em 1980 amigo do gaúcho que acabara de voltar do exílio para retomar a carreira política no Rio. Por ser amigo de Brizola, virou militante do PDT. Por ser homem de confiança do chefe, virou deputado federal, secretário municipal, secretário estadual e, depois da morte do fundador em 2004, presidente do partido. Por ser presidente do PDT, virou ministro do Trabalho em 29 de março de 2007. Por ser um bom companheiro da base alugada, virou bandido de estimação. Por ser protegido de Lula, continuou no cargo depois da posse de Dilma Rousseff.

Paulista de Campinas, 51 anos, Lupi não tem espaço na cabeça para alguma coisa que preste ─ só cifrões de origem obscura nascem e crescem em desertos de neurônios. A rasura do cérebro dificulta até a conjugação do verbo inseparável da própria biografia: corromper. No vídeo, por exemplo, ele tropeça espetacularmente na terceira pessoa do singular: “Quem corrompõe…”, derrapa o filhote da Era da Mediocridade. A caminho do despejo, Carlos Lupi criou o verbo “corrompor”. Significa, provavelmente, “propor alguma coisa a um ministro corrupto”.

"Para me tirar só abatido à bala - e precisa ser bala forte, porque eu sou pesadão."(Lupi)

terça-feira, 8 de novembro de 2011

DILMA NARRANDO O QUE VIU NA REUNIÃO DO G20. NÃO É PIADA!


de Dilma Rousseff
“Aí fomos para a reunião do G20. Na reunião do G20… Aliás, desculpa, dos Brics. Na reunião dos Brics, os Brics discutiram a questão da crise europeia. Os Brics, eu acho que nenhum deles foi… todos eles acharam que tinha de aumentar, se houvesse uma ajuda, se fosse necessário a ajuda, se… obviamente, os que são ajudados têm de querer. Enfim, são discussões…”
“Nas reuniões, assim, mais laterais: com os japoneses, discutimos o trem de alta velocidade… Quem mais que foi? Ah, com a OIT, foi essa questão que a OIT enfatizou muito, a importância que o Brasil tem na questão da política social, da política de proteção social, da política de valorização do trabalho. Até a nossa… a recente promulgação do Pronatec. Eles acompanham bem acompanhado”.
“Com a primeira-ministra, com a chanceler Angela Merkel, nós discutimos a importância da relação do Brasil com a Alemanha; enfatizamos que vamos dar uma ênfase muito grande à questão da pequena e da média empresa no Ano Brasil-Alemanha 2013/2014 (…) Enfim, eu estou tentando ser o máximo específica, mas, em geral, há muita, havia muita preocupação com a questão da crise europeia”.
“Não é protecionismo, nós temos de nos proteger também, cada um faz o que pode. Agora, tem algumas medidas que nós nunca vamos controlar. Não vamos controlar a hora que eles resolvem despejar 800… A última vez foram 800 milhões? Bi? Trezentos? Quanto foi o último quantitative easing, o dois? Seiscentos bi? Eu não vou… não tem como controlar isso, não tem como controlar a política cambial chinesa. Nós achamos é que não passamos o tempo inteiro dizendo isso: que tem isso, que não pode ser assim, que tem de mudar. E, hoje, isso meio que se internalizou; hoje, não somos só nós a falar isso”.

ESTRANGEIROS RECEBENDO BOLSA FAMÍLIA

do Correio Braziliense

Índios paraguaios, colombianos e peruanos burlam a legislação e conseguem se nacionalizar brasileiros para receber benefícios do governo, como Bolsa Família e o auxílio-maternidade

Benjamin Constant (AM), Tabatinga (AM) e São Miguel do Iguaçu (PR) — Índios paraguaios, colombianos e peruanos não preenchem um requisito básico para receber o principal programa social do governo, o Bolsa Família: ser brasileiro. Mas, diante da frágil estrutura da Fundação Nacional do Índio (Funai), burlam a legislação e se nacionalizam rapidamente, ficando aptos a ganhar o benefício mensal. O Correio Braziliense/Estado de Minas percorreram aldeias nas fronteiras das regiões Sul e Norte do Brasil e detalham como funciona a fraude. A nacionalização — que, além do recebimento do Bolsa Família, almeja a aposentadoria especial para trabalhador rural e o auxílio-maternidade — é possível graças ao Registro Administrativo de Nascimento Indígena (Rani), uma Certidão de Nascimento especial para os índios. No documento, reconhecido por um funcionário da Funai e assinado por duas testemunhas — quase sempre indígenas da aldeia em que o estrangeiro chega —, fica registrado que o migrante nasceu em território brasileiro.

Com o Rani em mãos, o índio estrangeiro vai ao cartório de registro civil e consegue a Certidão de Nascimento tradicional. A partir daí, todos os documentos se tornam possíveis: Carteira de Identidade, CPF e título de eleitor. A maneira convencional de nacionalização exige que o índio more no país por pelo menos cinco anos e uma série de documentos que provem o vínculo com o Brasil.

Na aldeia Bom Caminho, em Benjamin Constant, no extremo oeste do Amazonas, na fronteira com o Peru e a Colômbia, 20 famílias de índios peruanos e colombianos integram a comunidade com pouco mais de 800 índios Ticunas. O cacique Américo Ferreira detalha como os índios passam a receber os benefícios: "Tiramos o documento (Rani) dos pais primeiro e, depois, os dos filhos".

A família do casal peruano Ortega Pereira Torres e Jurandina Parente Adan está entre os beneficiados. Jurandina diz que os R$ 166 do Bolsa Família são fundamentais para a sobrevivência. O casal tem seis filhos e, sem o dinheiro dado pelo governo brasileiro, não poderia comprar itens de sobrevivência. O rápido processo de nacionalização foi conseguido graças ao Rani forjado.

No sul do Brasil, na aldeia Ocoy (PR), a realidade não é diferente. O cacique Daniel Maraka Lopes diz que quase a metade do habitantes é do Paraguai. Mas a origem não impede que os estrangeiros recebam o benefício. "Quem não tem o documento brasileiro está fazendo de tudo para conseguir", conta. É o caso de Eugênio Ocampo e Silvina Benitez. Com seis filhos, eles recebem mensalmente R$ 230 do Bolsa Família. Desde que saíram do Paraguai, vivem em uma casa simples na fronteira com o país natal. Ambos falam muito pouco o português, se comunicam em guarani.

Sem solução
As esferas públicas envolvidas com a questão indígena nas regiões de fronteira conhecem o golpe, mas alegam ter dificuldade para combatê-lo. O coordenador de proteção social da Funai, Francisco Oliveira de Souza, tenta minimizar as fraudes dizendo que o critério da etnia é feito pelo reconhecimento dos pares. "Se há desvio, é com a conivência dos indígenas da comunidade", acusa. Souza faz uma digressão histórica e explica que o fato de um indígena nascer em um país vizinho não é relevante para a etnia. "Os limites internacionais foram marcados pelos brancos", ressalta. Além disso, segundo ele, muitos índios não sabem precisar em qual lado da fronteira estão. A Funai estuda uma forma de diminuir as fraudes, mesmo não considerando o golpe abrangente. "Queremos formar um banco de dados com todos os registros indígenas."

Em nota, o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) informa que "se o cidadão está documentado como residente no território nacional e preenche todos os requisitos para ser incluído no Cadastro Único e sendo a documentação autêntica, o gestor municipal não pode negar o cadastramento e o MDS não pode impedir que ele seja selecionado como beneficiário do Bolsa Família".

Responsável pelo cartório do segundo ofício de Tabatinga e pelo de primeiro ofício de Benjamin Constant, Abdias Pereira de Oliveira explica que os índios fraudadores alegam falar somente a língua do seu povo — no caso, a ticuna — e contam com um tradutor, que atua sabendo do golpe, para conversar com o tabelião. "O Brasil tem tudo: saúde, educação, aposentadoria e um monte de benefício. Por isso, eles ficam tentando se passar por brasileiros. Quando percebo, não faço a certidão e levo o caso para a Justiça", explica. Recentemente, o cartório fez uma campanha de registro e expediu a documentação para 1,5 mil índios. "Visitei 19 comunidades afastadas e vi apenas um posto da Funai. Não tem como o funcionário do cartório conhecer tudo. O registro é feito na base da palavra", detalha o tabelião. Em Tabatinga, mais de 2 mil índios recebem o Bolsa Família, o que corresponde a quase metade dos beneficiados na cidade: 4.148.

Professor da Universidade Estadual do Amazonas, Sebastião Rocha de Souza percebe modificações com o aumento dos benefícios para os índios. "Eles começaram a exercer a cidadania, mas também adquiriram o vício de ficar esperando a ajuda chegar", pondera. De acordo com ele, índios deixaram de pescar, fazer artesanato e até de se dedicar à agricultura, contando exclusivamente com o amparo do governo. "Muitas passaram a fazer questão de engravidar para conseguir o dinheiro do auxílio-maternidade", lamenta o educador.

Inquéritos na PF
O delegado da Polícia Federal de Tabatinga, Gustavo Pivoto, entende que falta um controle maior dos órgãos do governo federal, principalmente da Funai. Na delegacia regional, existem diversos inquéritos que investigam falsificações de documentos realizadas pelos índios da região, segundo ele. "Tem indígena responsável pelo cadastro que quer se eximir da responsabilidade", lamenta.

OS TUNGUISTAS NO GOVERNO DILMA

de Augusto Nunes

“Sou osso duro de roer”, gabou-se Carlos Lupi nesta segunda-feira. (Orlando Silva se sentia “indestrutível” quando o velório já ia chegando ao fim). “Eu quero ver até onde vai essa onda de denuncismo”, foi em frente o ministro do Trabalho.Vai acompanhá-lo até a hora do enterro em cova rasa, logo saberá.

“Vou mostrar que todas essas denúncias são falsas”, prometeu o ministro do Esporte quando o tsunami de provas contundentes ainda lhe parecia uma marolinha. Não conseguiu desmentir nenhuma. “Alguns nascem para se acovardar, outros para lutar”, declamou Lupi. “É o meu caso. Topo a luta. Vou até o fim”.

É a Teoria do Casco Duro. Inventada por Lula, recomenda ao companheiro delinquente que resista entrincheirado no gabinete aos que tentam confiscar-lhe o empregão e a senha do cofre.

A queda inevitável de Carlos Lupi repete o nauseante roteiro que orienta a cerimônia do adeus de ministros bandalhos. Há menos de um mês, solidário com o camarada Orlando Silva, o PCdoB enxergou uma insidiosa conspiração contrarrevolucionária na descoberta de que o Ministério do Esporte se transformou na casa da moeda do partido.

Solidário com o comparsa infiltrado no primeiro escalão, o deputado Paulinho da Força promete agora mobilizar as centrais sindicais que seu bando controla para a feroz resistência a inimigos de alta periculosidade.

Além da Força Sindical, quatro siglas descobriram que Carlos Lupi “está sendo vítima, assim como o movimento sindical, de uma sórdida e explícita campanha difamatória e de uma implacável perseguição política, que visa a desestabilização do governo e o linchamento público do titular da pasta.”

Essa conversa de gatuno pilhado em flagrante já passou da conta, como passaram da conta todos os outros capítulos, tão previsíveis quanto repulsivos, do espetáculo do cinismo reencenado pela sexta vez em cinco meses. O país decente já não suporta a lengalenga dos canastrões desprovidos de vergonha.

De novo, Dilma Rousseff invocou a presunção de inocência. De novo, Gilberto Carvalho avisou que, “por enquanto”, não surgiu nenhum fato que incrimine diretamente o chefe do bando. De novo, a Comissão de Ética da Presidência abriu uma sindicância para nada apurar. De novo, o governo tenta ganhar tempo.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

O MICO DA DILMA NO G20


“A reunião do G20 foi um sucesso relativo”, disse Dilma Rousseff. Nesse caso, outros participantes devem ter feito bonito para compensar a apresentação da supergerente do Brasil Maravilha resumida na foto desoladora. Foi um fracasso absoluto, berra a imagem. Havia menos gente na plateia do que na comitiva oficial.

É nisso que dá acreditar que governantes e jornalistas do mundo inteiro disputam a socos e pontapés o privilégio de ouvir conselhos, bravatas, invencionices e embustes despejados por emissários de um pobretão que se faz de rico vestindo um fraque puído nos fundilhos.

domingo, 6 de novembro de 2011

ELA NÃO FEZ NADA!


de Ferreira Gullar

Não vejo razão para atribuir à presidente Dilma Rousseff o propósito deliberado de eliminar do governo os corruptos em nome do respeito à ética e ao interesse público.

Se é verdade que cinco de seus ministros deixaram o governo por essa razão, isso se deveu às denúncias trazidas a público pela imprensa (que os lulistas desejam calar), deixando a presidente numa saia justa: ou os demitia, ou se mostraria conivente com a corrupção.

Ainda assim, nenhuma medida tomou para puni-los e obrigá-los a devolver aos cofres públicos o dinheiro roubado.

Não o fez e não o faria em nenhuma hipótese, uma vez que isso só manteria esses escândalos no noticiário dos jornais e da televisão, ainda com o perigo de arrastar consigo muita gente mais, tanto do PT quanto dos partidos aliados.

E, pior ainda, deixaria cada vez mais evidente a responsabilidade do ex-presidente Lula, que nomeou aqueles ministros e os impôs à sua sucessora, fingindo ignorar o que cada partido fazia no ministério que recebera de presente.

Isso não quer dizer que a presidente Dilma aceite os "malfeitos". Estou certo de que não. De fato, não tem escolha, a menos que se disponha a romper com o esquema político montado por Lula, do qual ela é peça fundamental.

A esta altura, independentemente do que considere certo ou errado, terá de se comportar de modo a não comprometer o projeto de poder traçado pelo chefe. Quando um jornalista perguntou a ele se pretendia voltar à Presidência da República, em 2014, Lula respondeu: "Eles é que não podem voltar de jeito nenhum".

O desvio do dinheiro público para o cofre dos partidos ou para comprar o silêncio dos envolvidos na falcatrua havia se tornado norma no governo de Lula, que aparentava não saber de nada, mesmo porque esse era o novo meio de suborná-los, após o desastre do mensalão.

O caso recente do Ministério do Esporte deixou isso bem claro: o policial João Dias Ferreira, então membro do PC do B, ao mesmo tempo em que ajudava no desvio do dinheiro do ministério para o cofre do partido, valia-se disso para, por meio de ONGs, encher o seu próprio bolso. Impossível acreditar que o ex-ministro Orlando Silva -que foi secretário-executivo do ministro anterior- não soubesse dos "malfeitos" que beneficiavam seu próprio partido.

Mas isso não foi exclusividade do Ministério do Esporte, pois, como se sabe, com algumas variações, o mesmo esquema de corrupção funcionava nos ministérios dos Transportes, da Agricultura e do Turismo, de que resultaram escândalos semelhantes, com a demissão dos respectivos ministros. Escândalos esses dos quais já quase ninguém fala e que não terão, ao que tudo indica, nenhuma consequência para quem os praticou.

Não resta dúvida, portanto, de que não se trata de coincidências lamentáveis, e sim de um procedimento generalizado que consiste em usar a máquina do Estado para manter o projeto de poder implantado por Lula e que ele pretende prolongar indefinidamente.

Essa é sua pretensão, sem nenhuma dúvida. Se vai conseguir consumá-la, já é outra conversa, uma vez que esse projeto de hegemonia contraria o interesse de partidos que são, no momento, seus aliados. Os dois maiores adversários do lulismo e, portanto, desse projeto, o PSDB e o DEM, perderam força, o que favorece as pretensões de Lula.

Desse modo, os obstáculos possíveis, que ele teria de enfrentar no futuro, viriam de uma eventual oposição do PMDB, do PSB e do recém-criado PSD.

Ainda que não possamos apontar indícios claros dessa hipotética reação, a verdade é que chegar ao poder é o objetivo de todo partido político e, caso Lula retorne à Presidência ou reeleja Dilma, os dirigentes atuais daqueles partidos terão, talvez definitivamente, perdido a vez.

A isso se soma o temor decorrente do que ocorre em alguns países vizinhos, onde o populismo pseudoesquerdista, para perpetuar-se no poder, não hesita em atentar contra a democracia.

Essa minha hipótese ganhará viabilidade se os escândalos continuarem, levando de um lado à desmistificação do lulismo e, de outro, à fragmentação de sua base de apoio. O inesperado câncer surgido na laringe de Lula introduz, no processo político, um fator imprevisível.

BENDITA HERANÇA MALDITA!


de Claudio Bittencourt*

Nunca antes na história deste país um presidente da República recebeu do
antecessor condições tão benditas quanto Luiz Inácio Lula da Silva, o Lula.
Não acredita? Então vamos lá, do princípio. Tudo começou quando um jovem
fidalgo português, de nome Pedro Álvares Cabral, partiu de Lisboa em busca das
Índias (com I maiúsculo!) nos idos de 1500... Ok, ok, vamos pular essa parte.
Passou-se o tempo, o Brasil foi descoberto, a independência declarada, a
escravidão abolida, a República proclamada, a ditadura instaurada e a democracia
restaurada – em tese. Após muita instabilidade política e um breve período de vacas
gordas, o Brasil mergulhou na ‘década perdida’, como ficaram conhecidos os anos
oitenta do século XX, que combinava estagnação, hiperinflação e uma sucessão
interminável de crises e planos econômicos fracassados. Foi aí que um presidente
da República chamado Itamar Franco, assessorado pelo ministro da Fazenda,
Fernando Henrique Cardoso, o FHC, lançou, em 1994, mais um plano de
estabilização da moeda, o Plano Real. Só que esse, ao contrário dos anteriores, deu
certo, a despeito da oposição de Lula e do seu partido, o PT, que, entre outras
imprecações, o taxaram de eleitoreiro.
Os anos que se seguiram foram muito difíceis para o Plano Real, que quase
deu com os burros n’água. Pode-se imaginar o que seja superar décadas de cultura
inflacionária e enfrentar e corrigir as distorções acumuladas em tão longo período de
desvario econômico. Mas o que tinha que ser feito foi feito, na medida do possível,
às vezes aos trancos e barrancos, mas foi feito. Para começar, na esteira do Plano
Real veio o Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema
Financeiro Nacional, o Proer, com o propósito de restabelecer a solidez e a
credibilidade do sistema financeiro, grandemente abaladas pela novel estabilidade
da moeda. Na era pré-Real, os bancos se viciaram em inflação, droga alucinógena
da qual tiravam a maior parte dos seus ganhos. Domado o dragão inflacionário, os
bancos foram atacados por uma terrível síndrome de abstinência, privados que
estavam daquela cachacinha cotidiana (inflação = 1,2% ao dia!). Segundo dados do
Banco Central, 22 deles sofreram intervenção/liquidação em pouco mais de um ano.
Lula e o PT foram radicalmente contra, conseguiram até uma liminar suspensiva na
Justiça, felizmente cassada. O Proer foi tão bem-sucedido que até hoje o nosso
sistema financeiro é considerado um dos mais sólidos do planeta, tendo passado
incólume pela crise de 2008. Na ocasião, Lula, o indefectível, estufou o peito e
cantou de galo para o seu colega americano: “O Brasil tem know-how para salvar
bancos. Tem o Proer. Se eles americanos precisarem podemos mandar tecnologia”.
Reconhecimento tardio? Ato falho? Não, empáfia mesmo.
Se petistas e afins implicaram com o Proer, imagine-se o que não fizeram
com o Programa de Incentivo à Redução da Presença do Estado na Atividade
Bancária, o Proes, uma espécie de Proer dos bancos estaduais. Aí, além das
costumeiras imprecações, valeu de tudo, até chute na canela, cusparada na cara e
cotovelada em praça pública. A situação desses bancos, que já não era boa antes
do Real, tornou-se insustentável com a estabilização da moeda. Ignorando
solenemente as mais elementares regras de boa administração bancária e de
prudência financeira, os bancos estaduais tinham por hábito emprestar aos seus
controladores, os governos estaduais, sem garantias e até ao arrepio de leis e
regulamentos. Financiando os déficits públicos a fundo perdido e muitas vezes sem
lastro, eles eram, em última análise, verdadeiras máquinas de fazer dinheiro, uma
ameaça real ao Plano Real – ameaça que se multiplicava ad nauseam em ano de
eleição. O nó górdio estava de tal modo embaraçado que o desenrosco não poderia
ficar restrito à ponta bancária da meada. Era necessário mais, muito mais, era
preciso envolver os governos endividados em programas de ajuste fiscal sérios e
acima de tudo duradouros. Os entes federativos foram então instados a aderir ao
Programa de Reestruturação Fiscal e Financeira dos Estados, por meio do qual o
governo federal assumia os passivos estaduais, tomando por garantia as receitas
futuras e os repasses do Fundo de Participação dos Estados. Exigia, em troca, a
adoção de medidas de austeridade, entre elas a desestatização dos bancos
estaduais e a privatização das empresas públicas deficitárias. Desestatização!!?
Privatização??! Aaarg!! - Lula e o PT, mais uma vez, radicalmente contra. A
“repactuação das dívidas estaduais”, como ficou conhecido o programa, foi lembrada
recentemente, quando economistas de renome internacional recomendaram solução
idêntica para a crise da dívida européia. Mais uma vez a velha Europa se curvou
diante do Brasil, e dessa vez não foi por causa do futebol, nem da beleza, do
charme e da simpatia da mulher brasileira.
Como coroamento das medidas moralizadoras pós-Real, foi promulgada, na
virada do milênio, a Lei de Responsabilidade Fiscal - LRF, que veio disciplinar a
gestão financeira dos entes federativos (União, Distrito Federal, estados e
municípios) não apenas no âmbito do Executivo como do Legislativo e do Judiciário.
Ganhou a transparência, perdeu a gastança irresponsável. Quem foi radicalmente
contra? Ora, os de sempre, Lula e o PT. Eles até ajuizaram Ação Direta de
Inconstitucionalidade no Supremo Tribunal Federal (na linguagem das siglas: o PT
ajuizou ADI no STF contra a LRF do FHC). Diga-se a propósito que ainda hoje eles
procuram brechas por onde enfiar um pé-de-cabra jurídico e arrombar a lei.
Note-se o tanto que se avançou, em apenas 6 anos, no sentido de tornar a
gestão pública brasileira menos esculhambada, em todas as esferas. Embora muito
ainda estivesse por ser feito, o pontapé inicial fora dado.
A despeito dessas iniciativas meritórias, o Brasil permanecia vulnerável a
turbulências internas e externas. Foram realmente difíceis os primeiros anos do
Plano Real, com a eclosão de três graves crises internacionais: México em 1995,
Sudeste Asiático em 1997 e Rússia em 1998. E para completar, uma esdrúxula
moratória mineira, em janeiro de 1999, decretada por ninguém menos que o ex-presidente Itamar Franco, patrono do Plano Real – até tu Brutus? Uma paulada atrás
da outra! Assim não há plano econômico que aguente. A economia brasileira foi alvo
de sucessivos ‘ataques especulativos’ e quase que a vaca foi para o brejo. Salvou-a
o Rhum Creosotado. Brincadeira, salvaram-na a maxidesvalorização do Real de
1999 e a reformulação da política econômica, que passou a assentar-se no tripé
câmbio flutuante, metas de inflação e superávit primário. Acrescente-se a essa
tríade a autonomia factual concedida ao Banco Central.
Como de hábito, Lula e o PT foram radicalmente contra. Para eles, superávit
primário foi a maneira que o governo malvado e neoliberal do tucano FHC encontrou
de tirar dinheiro dos pobres para entregar à ‘banca’.
Nada a lamentar. Depois de 20 anos de desempenho medíocre da economia,
havíamos, finalmente, encontrado a saída. Os instrumentos de política
macroeconômica então adotados, aliados ao fortalecimento do sistema financeiro,
ao saneamento das contas públicas e às regras de austeridade fiscal, haviam
formado o alicerce que nos permitiria alcançar a prosperidade nos anos vindouros.

Após duas décadas de vacas magras, estávamos com tudo pronto para ingressar no
período das vacas gordas.
Então, que vengam las vacas!
Não, ainda não. Uma ameaça pairava no ar. Lula, o indefectível, era
candidato pela 4ª vez à presidência da República, desta feita com chances reais de
vitória. Pelo histórico do personagem, era de se esperar que, uma vez eleito,
pusesse em prática tudo aquilo que não se cansava de bravatear Brasil afora. Ou,
pior, tudo que preconizava o programa do seu partido. Céus, o que seria de todo
aquele arcabouço econômico-financeiro-legal, penosamente construído nos últimos
anos, com grande sacrifício do povo brasileiro? Sabe lá Deus! O ‘mercado’, que não
sabia, entrou em polvorosa. À medida que o tempo passava, as eleições se
aproximavam e a vantagem de Lula se firmava, as bolsas despencavam, a inflação
disparava e as divisas externas se esfarinhavam.
Aí, num golpe de mestre, Lula escreveu (Lula escreveu!?) um documento
chamado Carta ao Povo Brasileiro, supostamente com a intenção de acalmar o
mercado e, de quebra, cooptar a classe média indecisa. O texto, um tanto repetitivo,
é também descosturado, não segue uma sequência lógica de raciocínio. Os
parágrafos se sucedem ignorando-se uns aos outros, pulam de alhos para bugalhos
sem a menor cerimônia, vagam erráticos da visão crítica sobre a situação presente a
antevisões paradisíacas do porvir, saltam para as aspirações populares, tecem
comentários superficiais sobre algum fato econômico, citam reformas muito
necessárias à modernização do país, informam uma ou outra intenção do futuro
governo, destacam a importância das ações sociais, mergulham novamente na
avaliação crítica, citam mais algumas reformas, abordam an passant a política
internacional e tornam a enfatizar o descalabro em que o país se encontra metido
por culpa das más intenções dos atuais governantes. Uma colcha de retalhos. No
meio de tudo, destaca-se uma entidade mítica, denominada ‘modelo’, citada sete
vezes (conta de mentiroso) ao longo do texto. O modelo esgotou-se, o modelo
fracassou, o modelo isso, o modelo aquilo... Somos enfaticamente convencidos de
que o ‘modelo’, seja lá isso o que for, é o grande culpado por todos os males que
nos afligem. Mas, aleluia, sob Lula, tudo será resolvido com um modelo novo,
zerinho, que nos trará a tão sonhada felicidade. E como será esse modelo estalando
de novo? Nada é muito claro nesse sentido, mas, pinçando aqui e ali, toma-se
conhecimento de que Lula pretende aprofundar as ações de cunho social, preservar
as instituições, respeitar os compromissos firmados pelo país, perseverar no
combate à inflação, no controle das contas públicas, no equilíbrio fiscal e, heresia
das heresias, manter a política de superávit primário.
Mas esse é o programa que aí está, ora pitombas! Onde foram parar os
discursos inflamados das portas de fábrica? Onde foi parar a indignação contra as
privatizações, o Proer, o Proes, a LRF e tudo mais que esse governo corrupto e
neoliberal do FHC inventou para tirar dinheiro dos pobres e entregar às elites?
Morreram na praia?
Claro que não, continuam vivíssimos até hoje, mas só na retórica, não nas
ações de governo, como se verá adiante.
Voltando aos propósitos da Carta. Conforme dito, ela teria a intenção de
acalmar o mercado e cooptar a classe média indecisa. Quanto a esta, tudo bem, a
classe média, como sabemos, gosta mesmo de emprenhar pelos ouvidos. Tanto
que, àquela altura da marcha eleitoral, já pendia para a candidatura lulista. Mas o
mercado, convenhamos, nunca deu bola para discurso pré-eleitoral; ele tem os seus
próprios parâmetros, muitas vezes insondáveis, e os petistas sempre souberam
disso. Se assim era, por que assumir compromissos opostos ao ideário tão
ferrenhamente defendido em anos e anos de militância política? A menos que o
ideário de Lula não fosse bem aquele que ele trombeteava nos palanques. Mas
quem será capaz de dizer qual é o ideário de Lula? Acho que nem ele mesmo – haja
vista o que pensa de si próprio: metamorfose ambulante.
A razão secreta dessa aparente incoerência é que Lula sabia, seja por
conhecimento próprio, seja por que fora convencido pelos assessores mais próximos
(posso apostar que aí tem o dedo do Palocci) que o tal ‘modelo’ (novo ou velho, que
diferença faz?) tinha uma boa chance de dar certo. Claro, desde que um governo
desastrado não metesse os pés pelas mãos. Um rápido balanço da situação
indicava isso. O Brasil de Itamar e FHC tinha feito direitinho o dever de casa,
abandonando as aventuras heterodoxas e perseguindo o receituário ortodoxo,
penoso mas eficaz. Alguns indicadores econômicos vinham sofrendo piora nas
últimas semanas, mas isso era mera consequência do pânico que se instalara no
mercado ante a provável vitória dos petistas nas urnas - nada que o tempo e a
reversão das expectativas não pudessem resolver. O importante é que o Plano Real
havia passado por provas severíssimas e conseguira sobreviver; a estabilidade da
moeda era um fato, estava consolidada. É certo que algumas reformas ainda
estavam por ser feitas, mas elas não eram assim tão urgentes. No que diz respeito a
fatores externos, era visível que a economia americana passava por uma fase de
desaceleração, ainda abalada pelo estouro da ‘bolha da internet’, mas também nada
preocupante. Em compensação, despontava na Ásia, recém admitida na
Organização Mundial de Comércio, a gigante China, com um apetite incomensurável
por commodities. Pesados os prós e os contras, valia a pena apostar nos
fundamentos econômicos do jeito que estavam. Assim se faria no início do mandato.
Depois, se alguma coisa desse errado, a culpa seria posta neles mesmos, os
fundamentos econômicos herdados do FHC, e só aí se partiria para uma virada de
mesa, perfeitamente justificada. Uma ruptura imediata seria um salto no escuro
totalmente desnecessário, incompatível com personalidades tão lúcidas e argutas
como soem ser os próceres petistas, capazes de jogadas de longo alcance, bem
estudadas, diligentes, estratégicas, estruturadas, pacientemente ensaiadas. Não é
mesmo? Alguém convenceu alguém lá dentro – quem disse que não há vida
inteligente no PT?
E a militância, tão aguerrida, tão consciente dos seus ideais, como é que fica
numa encruzilhada dessas? Aí entra em cena a Carta ao Povo Brasileiro. Mais do
que acalmar o mercado e cooptar a classe média, a Carta tinha também o propósito
de amansar os companheiros mais extremados, ansiosos que estavam por
desmontar e jogar no lixo as iniciativas neoliberais do facinoroso FHC – justamente
aquelas iniciativas que agora se pretendia preservar. Ou seja a Carta se propunha a
agradar a gregos e a troianos. Melhor dizendo, agradar a uns e enganar a outros.
Com certeza essa dicotomia explica não só a pobreza da obra como a coexistência
de tantas contradições num texto tão curto. Para não despertar a ira dos radicais,
nada melhor que o palavrório de sempre, mas sem carregar muito nas tintas, que é
para não espantar o outro lado. E, principalmente, tudo deveria ser feito sem creditar
mérito ao inimigo, quer dizer, aos governos anteriores, que seria o mesmo que
render-se aos seus argumentos, algo verdadeiramente impensável, passados mais
de vinte anos de proselitismo petista.
Deu certo, a militância nem percebeu a jogada - ou fingiu não perceber.

Esconder o mérito foi a parte mais fácil do plano, bastou maquiar dados e
fatos, arte na qual Lula mostrou-se mestre insuperável. No caso em tela, foi só
vender o novo e entregar o velho. Foi o que se fez na Carta ao Povo Brasileiro.
Depois de desqualificar o modelo existente, falar cobras e lagartos da situação em
que o país se encontrava, e repetir à exaustão que um novo modelo era preciso, o
documento sugere, ainda que de forma meio envergonhada, as linhas gerais do que
seria o modelo novo – igual ao velho, sem tirar nem por.
A essa altura dos acontecimentos, Lula já emitia, antes mesmo de assumir o
poder, os sinais de que se apossaria do mérito pelos anos frutuosos que estavam
por chegar. Tudo bem, se fosse apenas uma jogada eleitoral para consumo interno
do PT. O diabo é que pegou gosto pela coisa e adotou-a como estratégia política.
Mais do que isso, como estratégia de vida, levando às últimas consequências a
técnica goebbeliana de repetir uma mentira à exaustão, até que pareça verdade.
Assim nasceram a “herança maldita”, o “nunca antes na história deste país” e outros
chavões da retórica lulopetista. No seu delírio de grandeza, Lula terminou por
assenhorear-se não apenas daquele mérito, mas de todos que lhe aprouveram,
passados, presentes e futuros. Nesse afã, não teve escrúpulos em passar uma
esponja na História do Brasil, declarando-se inventor de tudo que existe de bom
neste país, desde os tempos daquele jovem fidalgo português que partiu em busca
das Índias etc, etc. Aos adversários, creditou a conta de tudo que é ruim. A julgar
pelos níveis de popularidade que alcançou, conseguiu convencer as massas – o que
se há de fazer?
Que extraordinário poder de convencimento tem o Lula! Das duas uma, ou é
iluminado por Deus, ou tem parte com o Capeta - não há meio termo. Cada
brasileiro que escolha o lado que lhe fala mais alto ao coração.
Antes que eu me esqueça. Eu gostaria muito de me orgulhar de um brasileiro
que veio lá de baixo, do Agreste pernambucano, a bordo de um pau-de-arara,
enfrentou todo tipo de privações, conheceu a fome e a miséria, começou a vida
como simples operário, galgou todos os obstáculos e chegou ao posto mais alto do
meu país. Ah, como eu gostaria! Não posso negar que às vezes me orgulho sim,
mas aí penso um pouquinho e caio na realidade. O orgulho vira decepção, a
decepção vira desgosto e o desgosto vira indignação.
- Brasil, não poderia ter sido um filho teu um pouco menos velhaco?
Voltando ao foco. Enfim, o tal modelo novo não apresentava novidade
alguma, como de fato não as apresentou até hoje, passados 9 anos de governo
petista – sinal de que era bom! Estão aí os instrumentos de política macroeconômica
que não me deixam mentir: o câmbio flutuante, o regime de metas de inflação e o
mal-falado superávit primário. Até a autonomia do Banco Central foi mantida, a
despeito de ter sido a única instituição a levar um (discretíssimo) puxão de orelha no
texto do Lula. Estão aí também os frutos das execradas privatizações, nenhuma
delas revertida, nem sequer contestada na justiça. Continua aí o programa de
repactuação das dívidas estaduais, em pleno funcionamento, assim como a Lei de
Responsabilidade Fiscal, a despeito das tentativas frustradas de desvirtuamento. E
estão aí os frutos do Proer e do Proes, também jamais questionados, senão da
boca pra fora.
Bem examinada a questão, constata-se que Lula, se não desfez o que estava
feito, tampouco criou algo novo para melhorar o Brasil. Nem sequer as reformas
citadas na Carta foram executadas a contendo. No frigir dos ovos, o seu governo
apenas surfou na maré de prosperidade que bafejou os países emergentes e que,
no caso do Brasil, é fruto do empenho dos seus antecessores. Lula, se mérito teve,
não foi pelo que fez e sim pelo que não fez.
Mas ele promoveu a distribuição de renda, diminuindo as desigualdades
sociais e resgatando da miséria milhões de brasileiros, como nunca se fez antes na
história deste país - dirão os que optam pela versão divina do Lula.
Eu, que estou mais inclinado para a versão oposta, por ora não contesto, mas
pergunto quantos brasileiros melhoraram de vida porque a economia mundial
cresceu, quantos melhoraram porque o Brasil cresceu e quantos melhoraram por
conta das iniciativas do governo. Destes, convém distinguir os que ascenderam
graças a ações sociais, digamos, ortodoxas (exemplos clássicos: ações nos campos
da educação, saúde, habitação, saneamento, transporte público, inclusão digital,
etc) daqueles que saíram da miséria por vias heterodoxas, recebendo renda
diretamente do governo.
A transferência direta de renda ameniza um problema imediato, urgente, mas
não pode ser um fim em si. Para render frutos sociais tem que ser condicionada à
participação em outros programas, voltados para a educação e a saúde dos
assistidos bem como à sua inclusão na sociedade. Caso contrário vira esmola, que é
a pior coisa que pode acontecer. “...uma esmola a um homem qui é são/Ou lhe mata
de vergonha ou vicia o cidadão” – já dizia o Rei do Baião, um pernambucano que
sabia das coisas.
Ademais, vista pela ótica macroeconômica, tal distribuição carece de
sustentabilidade. Se nos períodos de expansão ajuda a azeitar a economia, em
épocas de fraco desempenho surte o efeito contrário. E aí as coisas se complicam,
pois a economia é cíclica, como sabemos desde os tempos bíblicos. Sem falar no
risco, sempre presente, de descambar para o assistencialismo paternalista de cunho
eleitoreiro.
De um programa de distribuição de renda podemos dizer que será benfazejo
se levar as pessoas à porta de saída e, ao contrário, será nefasto se aprisioná-las
nas fronteiras da miséria.
E aí está o X da questão: no que diz respeito a essa importantíssima
distinção, os números ainda estão por ser conhecidos no Brasil.
O que se conhece, e assim mesmo precariamente, são os números de uma
outra distribuição de renda, oficiosa, não oficial, cujo público alvo não são os
excluídos da sociedade e sim os companheiros, os aliados, os amigos e os
familiares. Corrupção é o seu nome.
Mas esse é um outro capítulo da contribuição de Lula para a deseducação
dos brasileiros.

sábado, 5 de novembro de 2011

DO GOVERNO LULA AO COLO DA DILMA


da Isto É

Ao montar o esquema que drenou milhões do Ministério do Esporte para os cofres do PCdoB, o atual governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT), recorreu a um especialista. Trata-se do comerciante maranhense Miguel Santos Souza, 56 anos, uma espécie de empresário do setor de fraudes, muito requisitado em Brasília. Homem assíduo de gabinetes de ministros e parlamentares e visto com regularidade em licitações públicas na Esplanada, Miguel opera há mais de dez anos uma verdadeira fábrica de empresas laranjas usadas em contratos e convênios com o governo. ISTOÉ descobriu que várias dessas empresas, mesmo incluídas na lista negra de fornecedores da União, conseguiram entrar em pelo menos cinco ministérios comandados pelo PT e base aliada. Também abocanharam contratos no STF, na Câmara e no Exército. Miguel operou até para o ex-governador do DF José Roberto Arruda, que foi obrigado a renunciar no ano passado depois de ser flagrado em vídeo recebendo propina. Miguel e Arruda são réus num processo que corre na Justiça de Goiás. Documentos em poder do Ministério Público, obtidos por ISTOÉ, revelam que o atual operador de Agnelo fraudou convênio com o Incra e repassou parte do dinheiro para o caixa 2 da campanha de Arruda a deputado federal em 2002.

O organograma do esquema de Agnelo, revelado por ISTOÉ na última edição, ensejou um pedido de convocação para o governador do DF depor na Comissão de Fiscalização e Controle da Câmara dos Deputados. Na organização, Miguel Santos Souza ocupa o cargo de coordenador do núcleo de fraudes, responsável por criar empresas e recrutar ONGs. As falcatruas são tantas que parlamentares, com base na reportagem de capa de ISTOÉ feita semana passada, passaram a articular, além do depoimento de Agnelo, a abertura de uma CPI para apurar os desvios do programa Segundo Tempo. Miguel está diretamente ligado ao PM João Dias, homem de confiança de Agnelo. Assim como o PM, que ergueu uma mansão e comprou carros esportivos com dinheiro des­viado, Miguel também investiu. Comprou uma chácara no Lago Norte, com cascata e viveiro de animais raros, um apartamento no Plano Piloto e um prédio de quitinetes, que utiliza como sede de suas empresas-fantasmas. O comerciante também é um dos donos da construtora Citel. Na semana passada, a reportagem procurou Miguel em todos os seus endereços. Só conseguiu localizá-lo em Alagoas, para onde foi depois que surgiram as denúncias envolvendo seu nome. Ele negou ter participado dos desvios no Segundo Tempo e se irritou quando questionado sobre o processo que responde na Justiça ao lado de Arruda. “É tudo uma grande mentira”, disse.

À PF, no entanto, o comerciante e outros integrantes da quadrilha que fraudaram o Incra deram detalhes de como tudo funcionava – e ainda funciona. Miguel, segundo o inquérito, criou a Policom Comercial e Serviços. A empresa venceu licitação, previamente acertada, para construir casas populares num assentamento em Valparaíso de Goiás. Do contrato de R$ 1,3 milhão, segundo a PF, R$ 200 mil foram gastos com material de construção. O resto foi desviado e dividido entre os integrantes. O ex-superintendente do Incra Josias Júlio do Nascimento, falecido no ano passado, repassou parte da verba para José Roberto Arruda, então senador. “Do total do contrato, 5% seria utilizado como fundo de campanha do senador Arruda no próximo pleito”, disse o próprio Miguel à PF. Segundo outro depoente, Luiz Romildo de Mello, “Josias havia levado cerca de R$ 100 mil”. Romildo de Mello é o contador que aparece no organograma do esquema de Agnelo, a serviço de Miguel. Em seu depoimento, ele conta que Miguel passou um tempo “sumido” após o flagrante da PF e depois abriu outra empresa, a HP Distribuidora e Serviços, com a qual continuou a operar licitações.

A HP vem a ser uma das empresas que forneceram notas fiscais frias nas prestações de contas dos convênios do programa Segundo Tempo. Além dela, Miguel criou a Infinita e a JG Comércio de Alimentos, todas funcionando no mesmo apartamento da quadra 711 da Asa Norte, em Brasília. A JG também usava como laranja o motorista Geraldo Nascimento de Andrade, que gravou o vídeo mostrado por ISTOÉ na semana passada com as denúncias contra Agnelo. Levantamento da ISTOÉ revela que essas três empresas (HP, JG e Infinita) foram usadas pelo operador diversas vezes e não apenas no Esporte. Desde que foi criada em 2001, por Miguel, para despistar os órgãos de controle, a HP venceu várias licitações públicas tanto no plano federal como municipal. Na Infraero, abocanhou contrato de R$ 225 mil em 2003. A Madepa Madeiras, que ajudou a fraudar o Incra, fechou contratos com a Câmara dos Deputados, a AGU e o Dnit. O Ministério da Justiça, por exemplo, contratou a JG Comércio, em 2007, para fornecer 150 canis móveis para abrigar os cães farejadores usados pela PF na segurança dos Jogos Pan-Americanos de 2007. Valor do contrato: R$ 135 mil.

Ligações políticas à parte, a JG Comércio de Alimentos também foi contratada pela Polícia Rodoviária Federal, sob o guarda-chuva do Ministério da Justiça, que repassou à empresa-fantasma mais de R$ 300 mil, entre 2006 e 2007. A JG tem contratos ou foi subcontratada em convênios com os ministérios da Saúde, Ciência e Tecnologia, Trabalho e Desenvolvimento Social. Também conseguiu entrar no STF e até no Exército – como fornecedor da missão de paz no Haiti. Para se ter uma ideia da ousadia de Miguel, as três empresas que ele criou aparecem juntas em convênio de 2006, entre o Ministério da Saúde e o município de Charqueada, em São Paulo, para o fornecimento de equipamentos hospitalares. Na CPI do programa Segundo Tempo, que a oposição pretende convocar no Congresso, muito mais poderá vir à tona sobre a atuação do operador Miguel Santos Souza. E de seus poderosos clientes.

A CULPA É DA DILMA


A demissão do assessor é a confissão pública do ministro do Trabalho, Carlos Lupi, de que existe uma quadrilha agindo dentro do seu ministério. Será que Dilma vai "orlandear" uma semana antes de demitir?

O ministro do Trabalho, Carlos Lupi, determinou hoje o afastamento do assessor especial Anderson Alexandre dos Santos, coordenador-geral de Qualificação, acusado de ser operador do esquema de achaque a ONGs que tinham contrato com a Pasta, conforme denúncia publicada na revista Veja desta semana. Por meio de nota, Lupi disse que "não compactua com nenhum tipo de desvio de recursos públicos" e mandou abrir sindicância para apurar as irregularidades.

Segundo a reportagem, caciques do PDT, liderados por Lupi, teriam transformado os órgãos de controle da pasta em instrumento de extorsão. Relatos de dirigentes das ONGs Instituto Êpa, do Rio Grande do Norte e Oxigênio, do Rio de Janeiro, revelam que as entidades contratadas pelo Ministério para treinamento passavam a enfrentar problemas com a fiscalização da pasta e tinham os repasses de recursos bloqueados. Depois eram procurados por assessores graduados do ministro, que exigiam propina entre 5% e 15% do valor do contrato para que voltassem a receber recursos. Na nota, divulgada pela assessoria, o ministro informa que o afastamento de Santos valerá pelo tempo que durar as investigações. Mas ressalta que será respeitado princípio da ampla defesa tanto dele como de outros servidores envolvidos nas denúncias.

O ministro do Trabalho, Carlos Lupi (PDT), está na mira da presidente Dilma Rousseff, que deve reformar sua equipe no início de 2012. Dilma tem acompanhado há tempos as denúncias de cobrança de propina na pasta comandada por Lupi e, em agosto, mandou que ele demitisse seu chefe de gabinete, Marcelo Panella.Reportagem publicada pela revista Veja neste fim de semana mostra que assessores de Lupi são acusados de comandar um esquema de extorsão para liberar pagamentos de convênios com organizações não-governamentais (ONGs). Dirigentes de ONGs como o Instituto Êpa, do Rio Grande do Norte, dizem que colaboradores do ministro, como Weverton Rocha -- hoje deputado federal -- e Anderson Alexandre dos Santos exigiam pagamentos que variavam de 5% a 15% do valor dos contratos. Os dois respondiam diretamente a Marcelo Panella, tesoureiro do PDT e homem da confiança de Lupi.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

NÃO HÁ INOCENTES


de João Bosco Rabello

O governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT), não acha que uma gravação em que chama o soldado João Dias Ferreira de “mestre” e na qual aceita facilitar uma fraude para livrá-lo do desvio de milhões de reais, seja suficiente como prova de seu envolvimento nas falcatruas do programa Segundo Tempo, do ministério do Esporte.

É claro que o governador sabe do peso dessa fita no processo que responde junto ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), agora na companhia do ex-ministro do Esporte e também seu ex-Secretário Executivo na Pasta ao tempo em que se concebeu o programa, Orlando Silva.

Que também cobrou uma prova de seu envolvimento com o mesmo PM, que o acusa de receber propina. Silva, espertamente, centrou nesse episódio sua defesa para poder bradar aos quatro cantos sua inocência e sair como vítima do ministério sob os aplausos de todo o governo. Como se tudo se resumisse à acusação do soldado.

Silva e Agnelo estão juntos na operação de uma rede partidária que se valeu de convênios com ONGs para transferências milionárias de verba pública ao PC do B. É disso que se trata – e é por isso que o ministro caiu e o governador caminha na mesma direção.

Silva pode ser inocente da acusação de receber propina, mas não o é em relação aos desmandos na Pasta que dirigia e tem responsabilidade no desvio das verbas do programa Segundo Tempo. Não por outra razão, responde por isso no STJ por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF), seguindo pedido do Procurador-Geral da República, Roberto Gurgel.

Já o PC do B recorre ao passado histórico (com meias-verdades, diga-se) para se vitimizar também, como se falta de antecedentes (que não é o caso) ou luta contra a ditadura constituíssem automaticamente licença para prevaricar.

Seu presidente, Renato Rabelo, diz no programa de TV que todas as denúncias contra o partido “se mostraram ou se mostrarão” inverídicas. Ou seja, além de negar o presente, dá garantias de bom comportamento de cada um de seus filiados no futuro.

É esse tipo de cinismo corporativo o maior desafio do novo ministro, Aldo Rebelo (SP), quadro histórico do partido, de biografia considerável, na missão de sanear o ministério.

Poderá ter êxito, mas não exclusivamente por sua biografia. Terá que partir da premissa de que ali, ao contrário do que todos disseram na solenidade de sua posse – inclusive ele próprio – , não há inocentes.

DEVOLVAM O DINHEIRO ROUBADO!


de Augusto Nunes

Agora que Dilma Rousseff já renovou o contrato de arrendamento do Ministério do Esporte ao PCdoB, entregou a chave do cofre a Aldo Rebelo, decidiu que “Orlando Silva fez um excepcional trabalho, foi incansável para a preparação do Brasil para os grandes eventos esportivos que sediaremos” e infiltrou na discurseira uma ameaçadora metáfora futebolística: “Hoje colocamos a bola no chão, reiniciamos o jogo e vamos para o ataque”;

Agora que o presidente do PCdoB, Renato Rabelo, já aproveitou a troca da guarda do cofre para promover uma festinha íntima dos comunistas do Brasil, aquecida pela descoberta de que “o partido sai engrandecido desses últimos acontecimentos”;

Agora que Orlando Silva já jurou incontáveis vezes que é inocente e vai vingar-se dos misteriosos carrascos, sempre caprichando na voz embargada e na lágrima furtiva que engrossava a cada buquê de flores entregue à companheira;

Agora que Aldo Rebelo, olhos nos olhos do antecessor, já resumiu numa frase besuntada de açúcar e de afeto (“Mais do que inocente, o senhor é vítima”) a beleza da camaradagem delinquente;

Agora que acabaram as comemorações da turma que tungou até o dinheiro das crianças, enfim, está mais que na hora de o Tribunal de Contas da União, a polícia, o Ministério Público e o Judiciário tratarem de entrar em campo para completar o serviço que a imprensa começou e o governo pretende encerrar com a mudança que deixa tudo como está. Demissão é ato administrativo. Não é o fim, mas a primeira etapa da história. Chegou o momento da aplicação dos códigos legais. Só cadeia não basta. O país decente também exige a devolução do dinheiro roubado.

ONDE MORA A HONESTIDADE?


do jornalista Carlos Chagas
"Erros foram praticados durante o regime militar, eram tempos difíceis. Claro que no reverso da medalha foi promovida ampla modernização de nossas estruturas materiais. Fica para o historiador do futuro emitir a sentença para aqueles tempos bicudos."

Mas uma evidência salta aos olhos.

Quando Castelo Branco morreu num desastre de avião, verificaram os herdeiros que seu patrimônio limitava-se a um apartamento em Ipanema e umas poucas ações de empresas públicas e privadas.

Costa e Silva, acometido por um derrame cerebral, recebeu de favor o privilégio de permanecer até o desenlace no palácio das Laranjeiras, deixando para a viúva a pensão de marechal e um apartamento em construção, em Copacabana.

Garrastazu Médici dispunha, como herança de família, de uma fazenda de gado em Bagé, mas quando adoeceu, precisou ser tratado no Hospital da Aeronáutica, no Galeão.

Ernesto Geisel, antes de assumir a presidência da República, comprou o Sítio dos Cinamonos, em Teresópolis, que a filha vendeu para poder manter-se no apartamento de três quartos e sala, no Rio.

João Figueiredo, depois de deixar o poder, não aguentou as despesas do Sítio do Dragão, em Petrópolis, vendendo primeiro os cavalos e depois a propriedade. Sua viúva, recentemente falecida, deixou um apartamento em São Conrado que os filhos agora colocaram à venda, ao que parece em estado lamentável de conservação.

Não é nada, não é nada, mas os cinco generais-presidentes cometeram erros, mas não se meteram em negócios, não enriqueceram nem receberam benesses de empreiteiras beneficiadas durante seus governos. Sequer criaram institutos destinados a preservar seus documentos ou agenciar contratos para consultorias e palestras regiamente remuneradas.
Bem diferente dos tempos atuais, não é?

Por exemplo o Lulinha filho do Lula era até pouco tempo atrás funcionário do Butantã/SP, com um salário (já na peixada politica) de R$ 1200,00 e hoje é proprietário de uma fazenda em Araraquara, adquirida por 47 milhões de reais, e detalhe, comprada a vista!
Centenas de outros politicos, também trilharam e trilham o mesmo caminho.
Se fosse aberto um processo generalizado de avaliação dos bens de todos politicos, garanto que 95% não passariam, ié, seria comprovado destes o enriquecimento ilícito. Como diria Boris Casoy: "Isto é uma vergonha" e pior, ninguém faz nada."

Aquele regime era Ditadura. E este agora, podemos chamar de Democracia ????

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

GOVERNO BIZARRO



O Globo




Algo parecia não fazer sentido na saída festiva de Orlando Silva do cargo de comissário-mor do PCdoB no Ministério do Esporte, substituído, por evidências de corrupção, pelo deputado Aldo Rebelo, do mesmo partido.
A despedida, convertida em ato de desagravo a Orlando Silva, não tinha características de desfecho de uma crise em que o ministro ficou mais do que exposto — tanto que saiu —, ao não conseguir responder às denúncias de uso de ONGs para surrupiar dinheiro do contribuinte e transferi-lo ao caixa dois partidário e/ou de pessoas físicas.
Tratado como se tivesse sofrido grande injustiça, Orlando Silva chegou a merecer palavras especiais mesmo de quem achou que ele não poderia continuar, a presidente Dilma Rousseff. “Orlando Silva não perde meu respeito...” Mas preferiu afastá-lo, por ele não ter conseguido impor uma “agenda positiva”.
Era mesmo impossível ofuscar a “agenda negativa”. O escândalo começou — como costuma acontecer em tramoias nos subterrâneos da política — com um dos beneficiários de desvios milionários do Programa Segundo Tempo, o ex-PM e ex-militante do PCdoB João Dias, também dono de ONG, sentindo-se traído.
Desgostoso, denunciou o esquema à revista “Veja”, no qual haveria o envolvimento direto de Orlando Silva.
Alguns dias de atenção da imprensa profissional sobre a plantação de ONGs em torno do Esporte descerraram um cenário de grande falta de cuidado na liberação de recursos públicos. Mais do que isso, deixaram à mostra sinais fortes de fraude.
O fato de militantes do PCdoB povoarem a direção de ONGs irrigadas pelo ministério com dinheiro do contribuinte denuncia o crime político-financeiro, para o qual era imprescindível haver a conivência da cúpula do ministério.
Como já acontecera, no governo Dilma, nos Transportes, na Agricultura e no Turismo. E continua a ocorrer em algumas outras pastas, prováveis futuros escândalos.
Os estatutos do PCdoB estabelecem que o bom comunista continua a obedecer a determinações do partido mesmo em cargos públicos.
Sintomático que Aldo Rebelo tenha declarado que ministro é função de Estado. Já tem missão para adotar na prática a interpretação correta de cargo público: rever todos os convênios assinados pelo ministério.
Dilma não evitou a participação calorosa na festa de Orlando Silva, mesmo com o ex-ministro acionado pelo Ministério Público Federal, na companhia do antecessor, Agnelo Queiroz, junto ao Superior Tribunal de Justiça (STJ). Tampouco o fato de a Controladoria Geral da União (CGU) cobrar do ministério a comprovação de gastos de R$ 49 milhões feitos em convênios a partir de 2006 constrangeu a presidente.
Na essência, o mesmo comportamento ocorreu em demissões anteriores, em que a presidente se derramou em elogios ao PR de Alfredo Nascimento e ao PMDB de Wagner Rossi e Pedro Novais.
A própria Dilma, na festa de Orlando, deu a chave da charada: “Perco um colaborador, mas preservo o apoio de um partido cuja presença no meu governo considero fundamental.”
É devido a esta visão, pela qual vale tudo para manter a base parlamentar, que Dilma resolve ela própria envergar a saia justa de fazer mudanças necessárias no ministério, mas com o risco de deixar tudo na mesma.

domingo, 30 de outubro de 2011

BOA SORTE, LULA!


De Reynaldo-BH, leitor do Blog de Ricardo Setti

“Lula está com câncer na laringe.

Só posso dizer uma coisa: que merda! Desculpe-me a expressão.

Dizem que mineiro só é solidário no câncer. Além da evidente mentira, mesmo assim seria um ato de justiça se fosse verdade.

O que desejar a Luiz Inácio (o ser humano)? Sucesso! Saúde! Que ganhe esta batalha. Que vença esta luta. Nesta, estamos juntos.

Não mudo minha opinião sobre a personagem Lula.

Maléfico ao Brasil. Destruiu uma expectativa de mudanças em nome de um poder sem limites. Um mitômano que mente até mesmo para si. Um paranoico que vê em adversários, inimigos. Um político que faz aliança com o capeta em nome de qualquer objetivo.

Isto continuarei a afirmar.

No mais, só posso dizer: FORÇA LULA!

Entre a doença e a saúde, sempre ficarei em qualquer situação com a saúde.

Entre a dor (da família) e a alegria, alegria.

A escolher entre a eliminação de oponentes e a discussão de ideias, estou aqui para discutir.

Assim como torci por Dilma na luta que venceu (e sei que venceu!) contra esta malignidade, também faço o mesmo por Lula.

Não só em respeito a ele. Mas também em respeito a mim. E a qualquer ser humano que mereça esta denominação.”