sábado, 5 de março de 2011

MIJÕES DO CARNAVAL

de Ricardo Noblat

E pensar que até outro dia reclamava-se de que o carnaval de rua no Rio tinha acabado, estava morto. Hoje há até de sobra. Só no fim da semana passada, 114 blocos desfilaram pela cidade, 59 dos quais pela Zona Sul. Está bom ou quer mais?

Sou do tempo em que, quando o Suvaco de Cristo saiu pela primeira vez, fui chamado pelo diretor do jornal em que trabalhava para me advertir, escandalizado, de que aquele nome não podia mais ser publicado. Era de "mau gosto", além de "heresia inadmissível num jornal católico".

Acho que ele morreu para não ver o desfile de alguns blocos atuais como Xupa Mas Não Baba, Que Merda É Essa? Encosta Que Ele Cresce, Butano na Bureta.

Nunca fui folião, mas não sou estraga-prazer. Curto ver a festa. Quando no último domingo milhares de pessoas ocuparam as pistas da Praia de Ipanema pulando e cantando em coro, como se estivessem sendo regidas por um maestro, cheguei a ter vontade de cair no samba. Em nenhum lugar do mundo se vê um espetáculo tão espontâneo e animado.

Quase dez horas depois, no entanto, meus ouvidos não aguentavam mais, queriam um pouco de silêncio, sem falar na angústia de ficar preso, sem poder sair nem entrar na rua. E se houvesse a necessidade de uma emergência? Sei de moradores e vizinhos da Rua Farme de Amoedo que entre sexta e domingo não conseguiram dormir uma noite sequer.

Justiça seja feita, as autoridades estão tentando descobrir como conciliar a alegria e a ordem urbana, o direito dos que querem brincar e o dos que não querem. A prévia do fim de semana passado, porém, é um aviso de que pode ser pior no carnaval que começa hoje. Mais de 200 veículos foram rebocados, mais de 700 multados e mais de 200 pessoas apanhadas urinando na rua durante a passagem dos blocos, sendo quatro mulheres.

Antes, alegava-se que a culpa era da falta de banheiros, que foram então espalhados pela cidade. Os mal-educados agora urinam ao lado ou atrás dos próprios mictórios.

Sei que é melhor ter as ruas ocupadas alegremente por blocos carnavalescos, com todos os inconvenientes, do que tomadas por manifestantes enfrentando a polícia como está acontecendo em tantos países. Mas não se trata de uma coisa ou outra. É preciso garantir o direito à alegria, mas também à circulação e à tranquilidade dos que moram no bairro.

Quanto aos mijões e aos vândalos, que pisam canteiros e quebram portões de edifícios, a saída é aumentar o cerco e a repressão. O que não se pode é permitir que uma festa com uma história tão bonita como o carnaval de rua — agora revitalizado — seja desvirtuada por uma minoria ativa de foliões para os quais brincar é espalhar maus modos e mau cheiro pela cidade.

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