domingo, 6 de setembro de 2009

O MERCADO CENTRAL DE BH



O Mercado Central de BH será, a partir desta segunda-feira, um senhor de 80 anos de idade. Um senhor com saúde para dar e vender. Saúde para vender nas barracas coloridas de frutas e verduras, nas lojas de legítimos queijos das tradições das Gerais ou na frequentadíssima loja do assediado suco de açaí com banana e granola. Saúde para dar na paz dos corredores coloridos pelas mercadorias, nos cheiros, na boa prosa de comerciantes como Percy Rosa Miranda. Incansável nos seus 79 anos, ele sabe quase tudo de alho. Quase tudo porque não tem certeza se o produto é bom para espantar vampiros e outros bichos. Mais por uma questão de falta de crença em coisas que não habitam normalmente este mundo.
Mercado de panelas, de panos de prato; de balaios e abacaxis; de flores, de ervas e pimentas; de aves e carnes; de pilões e bananas; de botecos e cafés; mercado de restaurantes, como o Casa Cheia. Cheia mesmo. O tempo mínimo de espera no almoço é de 30 minutos. Maria Nazareth de Jesus faz as honras da casa. Com 89 anos, sofrida, mas feliz, realizada com seus feijões e petiscos bem temperados e que não metem medo em ninguém, nem na Deborah Secco, que tem um cuidado danado com aquele corpinho de…de modelo, de atriz, de musa. Um dia ela apareceu por lá “e comeu muito bem”, conta dona Maria Nazareth, que faz parte de uma família de 400 comerciantes.
Uma família unida que já está, em alguns ramos, na sua quarta geração. O negócio que começou com o avô está chegando às mãos do bisneto, como na perfumada Flora Veneza. Perfumada naturalmente, claro. Essa travessia genética contamina também a freguesia. Na barraca Santo Antônio, João Higino da Silva, de 50 anos, vai dizer, com orgulho, que quando comprou a loja, há 22 anos, herdou a clientela de outro João, João Luciano Sobrinho. E não perdeu um descendente sequer do primeiro freguês que chegou ali atrás de cereais e legumes e, hoje, de especiarias e bacalhau.

“É o modo de tratar. Se for preciso, ensinamos a preparar o bacalhau. Até por telefone”, diz João Higino com voz obviamente cativante. O que não é óbvio ali é a circulação. Interessante. Dificilmente alguém vai cruzar com a mesma pessoa mais de uma vez nos corredores do mercado. Afinal, são 30 mil pares de pernas perambulando por aquele mundo de variedades todos os dias. Uma multidão que pode passar de 50 mil aos sábados, domingos ou num deslumbrante feriado ensolarado. Uma multidão que compra, come e bebe em 7,8 mil metros quadrados só de lojas.

Um labirinto que tem também seu lado místico. “Os corredores formam uma mandala”, diz com convicção o presidente do mercado oitentão, Mácoud Patrocínio, que representa também a terceira geração no comando da Flora Veneza. Um labirinto que desvenda mistérios. Na Banca do Tio, aquela dos produtos exóticos, a primeira e a segunda geração de clientes vão descobrir por que a veterana cantora Ângela Maria tem certo apelido. “Ela é chamada de sapoti, que é esta fruta aqui, do sertão, tão doce quanto a voz da Ângela.” Quem diz é Elias José de Oliveira, que até ensina como se come a preciosidade, originária da América Central e que se deu muito bem neste chão tropical. “É boa para geleia, musse, mas o bom mesmo é comê-la madurinha.”

Por tudo isso e muito mais que poucos escribas podem contar, não há como revogar aquela máxima: está triste, por baixo, vá para o mercado. Bastam um chinelo, uma bermuda e uma camiseta e vontade de estar entre os iguais, sem medo de nada, nem de maledicências. O Mercado Central, de oito décadas, faz bem para os olhos, o olfato, o tato e o paladar e não incomoda os ouvidos. Faz bem para o espírito. “Concordo plenamente”, diz o porteiro José Vicente de Deus Martins. “É emocionante.” Que assim seja, sempre.

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